sábado, 16 de fevereiro de 2008

Onde foram parar as lavadeiras?


“Não é saudade da exploração do trabalho pouco qualificado, não estou tentando dizer que lavar roupas é o sonho de toda menina e nem estou sendo machista. Pelo amor de Deus, não é nada disso, Fernando...” – por mais que Maria Júlia tentasse convencer o noivo, ele não entendia. A pergunta foi lançada ao acaso, durante uma daquelas tardes bem modorrentas de verão, quando a sombra de uma árvore vale mais que o ar condicionado grau sibéria do escritório onde os dois trabalham. Era uma pergunta inofensiva, que remetia a uma saudade de infância, que não tinha relação com opressão às mulheres ou com lutas de classe. Maria Júlia, deitada no colo do noivo, preguiçosa até para ter pensamentos mais simples, sem coragem de perguntar o que iriam comer no almoço ou decidir se naquele dia dormiriam na casa dele ou na dela, havia perguntado: “onde foram parar as lavadeiras? Você já reparou que não tem mais aquelas mulheres andando pelas ruas com trouxas na cabeça? Algumas enrolavam a trouxa lavada e passada em sacos plásticos, com medo da chuva, lembra Fernando?”. Foi o que bastou para o noivo reagir com uma agressividade que Maria Júlia não conhecia e nem sequer imaginava. “Como é que é? Você sente saudades de ver aquelas pobre-coitadas lutando para subir no ônibus? Equilibrando sabe-se lá quantos quilos de roupa sobre a cabeça, com as pernas cheias de varizes, o rosto marcado pelo sol, porque eu não sei se você sabe dona Maria Júlia, que as lavadeiras lavam roupa na mão grande, no quintal de casa e não na máquina de lavar como a sua mãe...” – “E eu posso saber qual é a relação que a minha mãe e a brastemp dela têm com a minha pergunta”?. Os dois começaram a discutir, Maria Júlia levantou a cabeça do colo de Fernando, os olhos castanhos lançando faíscas de raiva e surpresa. Como ele tinha transformado uma pergunta tão boba em motivo de guerra dos sexos? Enquanto olhava o noivo, Maria Júlia lembrou da sensação que a invadiu naquela manhã. Acordou cedo como fazia todo dia, pouco depois das 5 horas. Ligou para Fernando, que teimava em fazer da noiva a sua hora certa matutina – “é mais gostoso ouvir a sua voz do que a gravação eletrônica do serviço de telefonia. Você me acorda meu amor, às 5h30?”- “Acordo meu lindo, mas só vou ligar uma vez. Semana passada você me fez perder a aula de step, porque fiquei ligando das 5h30 até quase 7 horas e você não acordava Fernando!” - O banho e o café foram rápidos. A preguiça era maior que o desejo de perder peso e a academia ficou para o dia seguinte. Sem a musculação, sobrou tempo e Maria Júlia dispensou o trajeto de ônibus, iria trabalhar a pé. Desceu a ladeira que separava o bairro onde morava, nem classe média alta, nem baixa. Um bairro como muitos na cidade, onde havia de tudo um pouco, casas antigas, prédios pequenos, escolas, salão de beleza, mercadinho. A especulação imobiliária ameaçava, mas ainda não havia chegado no trecho onde Maria Júlia vivia com a família – mãe, pai, dois irmãos adolescentes e uma avó velhinha. Pracinha e igreja, coisa rara na paisagem da cidade, sobreviviam desafiadoras ao avanço dos edifícios de 15 andares. A ladeira não era curta ou comprida. Também não era daquelas inclinadas. A cidade tinha fama por suas ladeiras que a dividiam em dois andares. Maria Júlia vivia na parte alta, mas a ladeira era confortável. Nos dias de sol e vento fresco, descer não era problema. “Para baixo todo santo ajuda”- dizia dona Angélica, a avó. De vez em quando subir dava mais trabalho, não porque a ladeira fosse inclinada, era até sinuosa, tinha uma rotatória, no centro uma pracinha pequena, com alguns bancos e um pé de amendoeira de sombra gentil. Subindo a ladeira um dia qualquer, Maria Júlia descobriu que precisava perder peso. Faltou fôlego e sobrou indignação. “Nunca mais sorvete de chocolate depois do almoço”. Estelinha, a colega mais próxima de trabalho, ia ver só, não adiantava insistir e nem trazer aqueles pedaços de bolo de aipim. No caminho para o serviço na manhã anterior àquela da discussão com Fernando, Maria Júlia descia a ladeira com a cabeça cheia de pensamentos se atropelando. O ponto de ônibus ficava logo abaixo. Isso sempre acontecia. Bastava botar o pé na rua e plugar o mp3 player no ouvido que lá vinham os pensamentos todos de uma vez. Ela tentava botar ordem, organizá-los em fila, mas todos vinham de vez, em algazarra, uma confusão de entontecer, era uma mistura de coisas para resolver no trabalho, com lembranças das últimas fofocas da academia embrulhadas com um trecho do livro que estava lendo e o ensaio de uma desculpa para dar ao professor de Antropologia porque ainda não havia escrito a resenha de Viva o Povo Brasileiro. Para surpresa de Maria Júlia, a cabeça, sempre viajante e conectada em tudo ao mesmo tempo, na manhã da briga amanhecera transparente feito água. Seria algum milagre que, de um dia para o outro ela conseguisse pensar com tanta clareza? Enxergar o mundo com uma nitidez reveladora? Pensou em água, na pureza dos seus pensamentos e lembrou das lavadeiras. Viu cenas da infância, organizadas e em seqüência, pela primeira vez na vida. Dona Madalena chega na porta de casa com a trouxa na cabeça e a filha do lado. Maria Júlia brincou a infância toda com aquela menina, toda quinta-feira, dia que a lavadeira vinha trazer a trouxa da semana anterior e buscar a roupa suja, mas nunca soube o nome dela. Era a filha de dona Madalena. Isso bastava. As duas deviam ter uns dez anos. A menina também não sabia o nome dela, na brincadeira tinham nomes inventados, Maria Júlia era Rita de Cássia e a menina era Maria Aparecida, Cidinha e Ritinha, duas modelos famosas que desfilavam no rol na frente da casa, um vão acimentado entre o portão e a porta da rua. Lembrou de Madá e começou a pensar em lavadeiras. Percebeu que nos últimos anos, a cena freqüente da sua infância e adolescência, mulheres, trouxas, crianças, já não era assim tão comum. “Todo mundo tem máquina de lavar em casa”. Na lagoa, famosa atração turística da cidade, ainda existem lavadeiras. Maria Júlia não andava por aqueles lados e não podia garantir que as mulheres que lavavam na lagoa percorriam as ruas com trouxas e crianças atrás. No meio por onde ela circulava, no seu bairro, no caminho para o trabalho, na área central da capital onde pagava contas e fazia compras, é que ela não via mais as lavadeiras. A roupa que Madá trazia tinha um cheiro bom, mistura de sabão-massa, capim e sol. Era diferente das peças cheirando a amaciante que saiam da máquina de lavar da família. A imagem das lavadeiras, misturadas com a infância de Maria Júlia martelaram seus pensamentos durante a manhã no trabalho. Naquele dia, ela e Fernando iriam trabalhar apenas meio período, era véspera de feriadão, o dono do escritório de representações tinha planos de viajar com a família para o interior. Os funcionários foram liberados mais cedo. No final do expediente reduzido, veio o convite para que os dois fossem ao parque municipal. O dia estava quente, mas o parque era arborizado, gramado. Os dois poderiam ficar por ali um pouco, conversar, namorar e depois decidir o que fariam no feriadão. Fernando e Maria Júlia se conheciam há dois anos. O encontro foi na fila de uma agência de empregos. Selecionavam moças que dominassem ao menos um idioma estrangeiro (inglês ou espanhol) para uma firma de representações comerciais. A mesma empresa precisava também de um profissional de informática para instalar programas de última geração e garantir a conexão da firma com seus clientes no Mercosul e União Européia. Os dois ganharam as vagas. Diziam-se noivos, embora não usassem aliança e não houvesse um pedido formal. “E alguém ainda faz pedido formal minha mãe?” – respondia Maria Júlia cada vez que a mãe tocava no assunto. Sentados na grama, agora um diante do outro, Fernando e Maria Júlia se olhavam como se nunca tivessem se visto antes. Ela ainda tentava entender como a sua pergunta sobre as lavadeiras havia descambado para aquela discussão sobre justiça social, falta de oportunidades e hábitos pequeno-burgueses. Ele olhava para a noiva e o que via era uma cena distante, perdida no passado que não fazia questão de lembrar e que não dividia com ninguém: “Anda Fernando, pega a trouxa meu filho, lá vem o ônibus”.

Andreia Santana, fevereiro de 2008

A lavadeira no tanque

Bate roupa em pedra bem.

Canta porque canta e é triste

Porque canta porque existe;

Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez

Pudesse fazer nos versos

O que a essa roupa ela fez,

Eu perdera talvez

Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração? 
(Fernando Pessoa, 15-9-1933) 

3 comentários:

Alane disse...

E são tantas as Marias Júlias, tantos os Fernandos... É que não dá para não (se) identificar...

Matheus disse...

Viuge, mamãe, a mae de Fernando era uma lavadeira!
Adorei o texto, vc eh muito criativa, nao sou so eu nao. Minha tia e minha vo tb sao, embora minha avo nao use computador (computer). Ela eh criativa em outras coisas. Poste mais textos criativos, tá? So um conselho: nao poste textos muito longos! Da trabalho pra ler (nao eh que de trabalho, eh que eu fico lendo por muito tempo). Por favor, textos muito longos, nao.

Matheus disse...

Gostei do seu poema, mamae (quer dizer, do poema de Fernando Pessoa). Só uma perguntinha: Vc colocou o nome do noivo de Maria Júlia de Fernando Pessoa ou nao?
Eu nao entendi bem o poema A lavadeira do tanque, mas sei que eh bonito, neh?
Eu agora adoro comentar seu blogger!!!!!
BJS
p.s.: Vc viu a cobra da minha foto do blogger? EH fofa neh?