Maria sabia que não era nem um pouco fácil viver neste mundo ingrato, mas fazer o quê? Ela amava a vida com tanta intensidade que às vezes ficava deprimida. Mas as tristezas de Maria eram como chuva de verão, bastava uma delicada variação na luz do dia, um raio amarelo insinuar-se por detrás de uma nesga de nuvem, ela voltava a acreditar. Não era ingênua, mas humana.
Leia também:
>>Ensaio para um conto futuro
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Morpheu e os anjos entram em acordo
A discussão no céu estava animada. Ora o rei Morpheu berrava de um lado, ora O Arcanjo berrava do outro. Na maioria das vezes os dois berravam ao mesmo tempo e ninguém entendia nada. Os dois poderiam passar a eternidade inteira debatendo a questão, sem que ninguém soubesse direito de quem era a razão. No mundo das pessoas as vezes também é assim, discute-se eternamente sem que nenhum dos lados seja o vencedor. Mas, o menino que não gostava de dormir precisava descansar, pois ele já andava com olheiras roxas gigantescas, sem concentração na escola e literalmente cochilando em pé. Foi então que o anjo porteiro, aquele sem auréola, que pediu a carteira de identidade do rei do sono, apareceu na sala do trono do Arcanjo com uma sugestão:
- Con licença, majestades - disse o anjo porteiro. - Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.
Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:
- O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia... então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom...
Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:
- ...a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele "dormiria com os anjos" (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho...
Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, de vez em quando, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino. O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor para ideias incrivelmente simples e completamente geniais do Arcanjo.
O começo da noite sem sono:
>>I - O menino que não gostava de dormir
>>II - Uma audiência com Morpheu
>>III - Diálogo do sono e do menino insone
>>IV - Uma viagem ao reino dos anjos
>>V - Uma audiência com o rei dos anjos
- Con licença, majestades - disse o anjo porteiro. - Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.
Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:
- O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia... então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom...
Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:
- ...a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele "dormiria com os anjos" (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho...
Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, de vez em quando, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino. O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor para ideias incrivelmente simples e completamente geniais do Arcanjo.
O começo da noite sem sono:
>>I - O menino que não gostava de dormir
>>II - Uma audiência com Morpheu
>>III - Diálogo do sono e do menino insone
>>IV - Uma viagem ao reino dos anjos
>>V - Uma audiência com o rei dos anjos
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Uma audiência com o rei dos anjos
O Arcanjo era mais alto que Morpheu e isso aborreceu o rei do sono, que gostava sempre de ser mais importante que todo mundo. Ele era metido, mas era um bom rei, cuidava direitinho dos sonhos e dos pesadelos das pessoas. O rei dos anjos era um sujeito muito prático, que não perdia tempo com cortesias e foi direto ao assunto. O rei Morpheu gostava de caminhos mais demorados para resolver os problemas e apreciava gestos de boa educação, como mandar a visita sentar na cadeira ou almofada mais confortável da sala e oferecer um suco de limão geladinho. No céu não tinha suco de limão. Anjos se alimentam de luz, mas da última vez que comeu luz, Morpheu teve azia. O Arcanjo foi direto ao ponto:
- Você veio me visitar para falar de um menino que não gosta de dormir?
- É isso aí, respondeu Morpheu displicentemente - eu não gosto muito de sair de casa, ainda mais com esse trânsito hoje em dia. As estradas para o céu estão muito esburacadas sabia? Você devia mandar arrumar...
Um pigarrinho do Arcanjo fez o rei do sono parar de enrolar:
- O negócio é o seguinte colega, - os dois eram reis, Morpheu achou que podia chamar o Arcanjo de colega, mas o outro não gostou muito da intimidade - tem um menino na terra que não dorme porque os seus anjos ficam lá puxando conversa com ele e se ele não dorme, significa que eu não consigo fazer meu trabalho direito, que é botar o menino para sonhar. Então, eu vim aqui para você resolver a situação.
O Arcanjo arqueou uma sobrancelha:
- Caro senhor Morpheu, eu não posso me meter nas atividades que os anjos executam nos seus momentos de folga. Eles são livres para ir aonde quiserem e falar com quem bem entenderem.
Morpheu não estava gostando nadinha daquele rei dos anjos. Além de péssimo anfitrião, ainda era malcriado!
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
>>Uma viagem ao reino dos anjos
- Você veio me visitar para falar de um menino que não gosta de dormir?
- É isso aí, respondeu Morpheu displicentemente - eu não gosto muito de sair de casa, ainda mais com esse trânsito hoje em dia. As estradas para o céu estão muito esburacadas sabia? Você devia mandar arrumar...
Um pigarrinho do Arcanjo fez o rei do sono parar de enrolar:
- O negócio é o seguinte colega, - os dois eram reis, Morpheu achou que podia chamar o Arcanjo de colega, mas o outro não gostou muito da intimidade - tem um menino na terra que não dorme porque os seus anjos ficam lá puxando conversa com ele e se ele não dorme, significa que eu não consigo fazer meu trabalho direito, que é botar o menino para sonhar. Então, eu vim aqui para você resolver a situação.
O Arcanjo arqueou uma sobrancelha:
- Caro senhor Morpheu, eu não posso me meter nas atividades que os anjos executam nos seus momentos de folga. Eles são livres para ir aonde quiserem e falar com quem bem entenderem.
Morpheu não estava gostando nadinha daquele rei dos anjos. Além de péssimo anfitrião, ainda era malcriado!
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
>>Uma viagem ao reino dos anjos
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Uma viagem ao reino dos anjos
Viajar para o céu tinha suas inconveniências. A distância, os meteoros e meteoritos, a falta de placas de sinalização e os anjos estagiários, sem carteira de motorista, eram sem dúvida os maiores incômodos. Morpheu não gostava muito de sair dos seus domínios. Ele era um rei recluso, taciturno. Alguns diriam que era mau-humor por tantos milênios sem dormir. O rei dos sonhos chegou às portas do reino dos anjos, sacudiu a poeira estelar da capa e esperou que viessem abrir a porta. Veio um anjo muito solene, vestido em túnica azul celeste, com as asas brancas dobradas atrás das costas. Não usava auréola. "Auréola só serve para impressionar os crédulos humanos, mas é muito desconfortável". Morpheu se identificou muito a contragosto. Como todos os reis, esperava ser reconhecido e por isso ficou muito aborrecido quando o anjo porteiro pediu para ver a sua carteira de identidade. Depois de toda a burocracia para entrar no palácio do céu, finalmente ele foi levado à presença do rei dos anjos, que não tinha nome nem nada, simplesmente era conhecido como O Arcanjo...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Diálogo do sono e do menino insone
No palácio de Morpheu, onde o menino que não gostava de dormir estava de visita, acontecia um diálogo que não era bem o que o rei do sono esperava:
- Por que você não gosta de dormir, menino?
- E por que você só fica acordado?
- Eu perguntei primeiro!
- Mas eu sou mais novo e mais curioso. Além disso, sou a visita. Diz a etiqueta que o anfitrião precisa ter a visita em altíssima conta.
- E de onde a minha visita tirou um vocabulário tão erudito?
- Dos livros ora essa! E das conversas com os anjos.
- Então você conversa com anjos?
- Só de madrugada, quando o expediente no céu termina e eles não tem nada para fazer lá no alto, daí descem e ficam batendo papo com as crianças.
- E se você dormir eles não puxam conversa?
- Claro que não! O senhor por acaso já tentou falar dormindo?
- Eu não durmo.
- Pois devia. Meu pai diz que dormir faz ficar inteligente e minha mãe diz que dormir faz ficar forte.
- E por que você não dorme? Eu, por exemplo, gostaria, mas não posso dormir. Não tem ninguém para cuidar do palácio se eu dormir e nem para cuidar dos sonhos das pessoas e afastar os pesadelos.
O menino abriu um sorriso insinuante de orelha à orelha. O rei Morpheu sabia que estava encrencado e teria de pedir audiência com o rei dos anjos...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
- Por que você não gosta de dormir, menino?
- E por que você só fica acordado?
- Eu perguntei primeiro!
- Mas eu sou mais novo e mais curioso. Além disso, sou a visita. Diz a etiqueta que o anfitrião precisa ter a visita em altíssima conta.
- E de onde a minha visita tirou um vocabulário tão erudito?
- Dos livros ora essa! E das conversas com os anjos.
- Então você conversa com anjos?
- Só de madrugada, quando o expediente no céu termina e eles não tem nada para fazer lá no alto, daí descem e ficam batendo papo com as crianças.
- E se você dormir eles não puxam conversa?
- Claro que não! O senhor por acaso já tentou falar dormindo?
- Eu não durmo.
- Pois devia. Meu pai diz que dormir faz ficar inteligente e minha mãe diz que dormir faz ficar forte.
- E por que você não dorme? Eu, por exemplo, gostaria, mas não posso dormir. Não tem ninguém para cuidar do palácio se eu dormir e nem para cuidar dos sonhos das pessoas e afastar os pesadelos.
O menino abriu um sorriso insinuante de orelha à orelha. O rei Morpheu sabia que estava encrencado e teria de pedir audiência com o rei dos anjos...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Ensaio para um conto futuro
Maria acordou decidida a abrir mão de várias coisas que lhe pesavam na alma. Também chegou à conclusão de que havia pessoas pelas quais não valia a pena lutar e que certas idéias, merecem ser defendidas até a morte. Não, Maria não queria morrer. Apesar dos primeiros fios de cabelo branco e das bolsinhas embaixo dos olhos, ela ainda tinha força suficiente para caminhar mais um pouco...
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Uma audiência com Morpheu
O menino que não gostava de dormir viajou ao Reino do Sonhar em busca de uma audiência com o rei Morpheu. O soberano em pessoa veio recebê-lo na porta do seu palácio de sonhos. Os dois, lado a lado, passaram pelas grandes portas douradas e sentaram-se em confortáveis almofadas. Tudo na sala do trono do rei Morpheu é sedutor e preparado de modo a aconchegar, embalar e levar os rebeldes, como o menino, ao sono profundo. Mas, como o menino não é bobo nem nada, ele passa as noites conversando em sonhos. Morpheu, que nunca dorme, encontrou companhia para a eternidade de espera. Do quarto do menino vem o som das conversas. A língua estranha, desconhecida, "língua dos anjos" que os homens não falam, é de impossível entendimento para os outros moradores da casa. Há quem pense que ele está "pesadelando". Mas secretamente, faz companhia ao solitário rei do sono.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
XIII - O aprendiz de feiticeira
A jibóia Hamida dormia enroscada em uma árvore. Estava bem mais gorda do que Rajá lembrava. Ao tocar a pele da cobra, ela virou a cabeça e fixou os olhos muito brilhantes no menino. Após reconhecer o dono, deslizou pelo seu braço, até enrolar-se na cintura do garoto. Rajá cambaleou para trás, a cobra estava realmente muito mais pesada do que ele conseguia carregar. “Não aperte muito minha amiga, ou você vai quebrar os meus ossos”, pensava enquanto levava Hamida para a sala de visitas, na casa da feiticeira Ishstar.
A moça de cabelos vermelhos, olhos verdes profundos como as árvores da Floresta Sem Fim e que, apesar de ter o mesmo cheiro de sândalo e alfazema da rainha Isdora, era mais jovem, mais alta e “muito mais bonita”- Rajá se envergonhava em pensar - que a rainha da Cidade de Ouro e Prata, aguardava o menino, sentada sobre um tapete dourado.
Rajá entrou e depositou Hamida em um cesto de vime, onde a jibóia se enroscou e voltou a dormir, como se fosse um cachorrinho de estimação. Diante da feiticeira, sobre o tapete dourado, havia algumas pedras negras que ela explicou ao seu aprendiz, chamavam-se runas e serviam para prever o futuro. “Mas as runas não dão respostas exatas Rajá, você precisará aprender a interpretá-las para encontrar o que precisa”.
O príncipe suspirou e revirou os olhos. Na Cidade de Ouro e prata, disse à feiticeira, havia homens e mulheres muito mais velhos que ela que sabiam ler as runas. Se era para aprender algo tão elementar, ele não precisaria deixar o conforto do seu reino, se aventurar dias e dias por uma floresta muito perigosa para encontrar a casa da feiticeira.
-Rajá, - disse pacientemente Ishstar - se você deseja ser meu aprendiz, primeiro, terá de esquecer que é um príncipe que mora em um palácio de ouro e prata; segundo, terá de aprender a obedecer e; terceiro, precisará esquecer completamente os rudimentos de magia que aquele seu tio perverso andou lhe ensinando. Agora, levante-se, guarde as runas naquela sacola de couro ali ao lado do cesto de Hamida e venha comigo.
O menino levantou-se de má vontade, guardou as pedras e seguiu a feiticeira para uma clareira na floresta. O príncipe se perguntava como ela sabia que Islamal havia ensinado alguns truques mágicos para ele...
Para acompanhar a história desde o início:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III
A rainha prisioneira - final
A jibóia Hamida dormia enroscada em uma árvore. Estava bem mais gorda do que Rajá lembrava. Ao tocar a pele da cobra, ela virou a cabeça e fixou os olhos muito brilhantes no menino. Após reconhecer o dono, deslizou pelo seu braço, até enrolar-se na cintura do garoto. Rajá cambaleou para trás, a cobra estava realmente muito mais pesada do que ele conseguia carregar. “Não aperte muito minha amiga, ou você vai quebrar os meus ossos”, pensava enquanto levava Hamida para a sala de visitas, na casa da feiticeira Ishstar.
A moça de cabelos vermelhos, olhos verdes profundos como as árvores da Floresta Sem Fim e que, apesar de ter o mesmo cheiro de sândalo e alfazema da rainha Isdora, era mais jovem, mais alta e “muito mais bonita”- Rajá se envergonhava em pensar - que a rainha da Cidade de Ouro e Prata, aguardava o menino, sentada sobre um tapete dourado.
Rajá entrou e depositou Hamida em um cesto de vime, onde a jibóia se enroscou e voltou a dormir, como se fosse um cachorrinho de estimação. Diante da feiticeira, sobre o tapete dourado, havia algumas pedras negras que ela explicou ao seu aprendiz, chamavam-se runas e serviam para prever o futuro. “Mas as runas não dão respostas exatas Rajá, você precisará aprender a interpretá-las para encontrar o que precisa”.
O príncipe suspirou e revirou os olhos. Na Cidade de Ouro e prata, disse à feiticeira, havia homens e mulheres muito mais velhos que ela que sabiam ler as runas. Se era para aprender algo tão elementar, ele não precisaria deixar o conforto do seu reino, se aventurar dias e dias por uma floresta muito perigosa para encontrar a casa da feiticeira.
-Rajá, - disse pacientemente Ishstar - se você deseja ser meu aprendiz, primeiro, terá de esquecer que é um príncipe que mora em um palácio de ouro e prata; segundo, terá de aprender a obedecer e; terceiro, precisará esquecer completamente os rudimentos de magia que aquele seu tio perverso andou lhe ensinando. Agora, levante-se, guarde as runas naquela sacola de couro ali ao lado do cesto de Hamida e venha comigo.
O menino levantou-se de má vontade, guardou as pedras e seguiu a feiticeira para uma clareira na floresta. O príncipe se perguntava como ela sabia que Islamal havia ensinado alguns truques mágicos para ele...
Para acompanhar a história desde o início:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Príncipe Rajá anda por aí aprendendo a viver...
O menino impaciente pergunta para a velha contadora de histórias por onde andará o príncipe Rajá, pois a história que a velha conta, só dá mesmo conta de outros assuntos, menos daquele que de fato interessa, um menino e sua enorme vontade de se aventurar.
- E o que é que te interessa, meu filho ? - quer saber a velha contadora de histórias.
- Ora, a aventura, a vida, o mundo grande enquanto sou pequeno e tão pequeno depois que eu for grande e percorrer cada canto dele.
- Mas você não acha meu filho, que um menino de 11 anos incompletos ainda precisa viver muito antes de se aventurar?
- Mas viver já é uma aventura fantástica, não é?
- É isso meu filho, Rajá está por ai, aprendendo a viver... - E a velha contadora de histórias, com suas mãos nodosas, ajeita o xale sobre os ombros e promete ao menino que em breve o príncipe irá enfrentar perigos nunca antes imaginados.
- E o que é que te interessa, meu filho ? - quer saber a velha contadora de histórias.
- Ora, a aventura, a vida, o mundo grande enquanto sou pequeno e tão pequeno depois que eu for grande e percorrer cada canto dele.
- Mas você não acha meu filho, que um menino de 11 anos incompletos ainda precisa viver muito antes de se aventurar?
- Mas viver já é uma aventura fantástica, não é?
- É isso meu filho, Rajá está por ai, aprendendo a viver... - E a velha contadora de histórias, com suas mãos nodosas, ajeita o xale sobre os ombros e promete ao menino que em breve o príncipe irá enfrentar perigos nunca antes imaginados.
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domingo, 4 de janeiro de 2009
O menino que não gostava de dormir
Quero lhes contar uma história, sobre um menino que queria enganar o rei Morpheu. Noite após noite o menino fugia do sono. Dormir é chato, porque à noite não dá para brincar. Mas o menino esquecia que só quando dormimos abrimos as portas do reino do sonhar. Ele tentava todos os truques, para de Morpheu escapar: assistia TV, cuidava em ler um livro, puxava conversa com todos os bonecos de olhos pintados do seu quarto. Mas o rei do sono é poderoso e seu poder incomparável, quando menos o menino esperava, já estava aninhado, embalado e roncando...
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
A rainha prisioneira - Final
As ajudantes prometidas pelo conselheiro de Islamal chegaram no final da tarde ao quarto. Traziam água quente, sais de banho, pétalas de rosa, escovas de cabelo e de dentes, henna para pintar as mãos e os pés da rainha, khol para seus olhos e uma mistura carmim para os lábios. Numa caixa, que Isdora reconheceu como sendo a sua própria caixa de jóias, havia braceletes, tornozeleiras, anéis, brincos e colares de pedras preciosas.
A rainha olhava as criadas indo e vindo pelo quarto, abrindo espaço para preparar o seu banho. Ela não ofereceu resistência quando as mulheres a tiraram da cama, despiram suas roupas sujas e começaram a esfregar a pele, lavar seus cabelos com água de rosas. Também se comportou bem enquanto as criadas desembaraçavam os longos cabelos negros e refaziam as tranças, enfeitando-as com pedrinhas. Estendeu as mãos e os pés para a pintura de henna e deixou-se maquiar como uma boneca, sem reclamar, sem resistir.
No final, quando estava belíssima no vestido novo enviado pelo seu seqüestrador, a rainha Isdora aguardou que a porta do seu quarto-prisão fosse aberta. E, quando isso aconteceu, ela correu. Correu como se tivesse asas nos pés, correu como se não fosse uma rainha, mas uma gazela fugindo de um tigre. Os guardas que foram mandados para levá-la até o jantar de comemoração corriam atrás da rainha, mas eram pesados, com armaduras de couro, capacetes, escudos e lanças. Isdora, em seu vestido leve e esvoaçante, pequena e magra, corria pelo palácio como um fantasma.
Conseguiu sair para um dos jardins. Misturou-se às flores e arbustos. Ficou escondida, arfando, recuperando o fôlego. A rainha conhecia cada um daqueles jardins, conhecia as propriedades de cada uma das plantas. As que curavam, as que matavam, as que lançavam quem as comesse em um sono eterno e uma plantinha em especial, capaz de transformar quem a comia em pedra. Recolheu um pedaço da planta venenosa para matar, um pedaço do seu antídoto para curar e uma muda inteira da que servia para transformar gente em pedra e guardou tudo sob as vestes.
Depois, calmamente, saiu do meio das flores e arbustos e, com passos decididos, caminhou até o grande salão real, onde sabia que Islamal a aguardava. A rainha tinha certeza que os guardas e as criadas não comentariam com Islamal a sua desabalada carreira pelos jardins. Os próprios guardas, atônitos, não entendiam direito o que a rainha tinha ido fazer no meio das árvores. Se ela queria fugir, porque não correu para o portão?
Pensaram que Isdora tinha enlouquecido depois de meses trancada. Todos que trabalhavam para Islamal sabiam que seriam castigados se contassem a ele que por alguns minutos perderam a rainha num dos jardins e já que, a própria rainha agora caminhava calmamente em direção ao banquete, parecendo tão calma e tão resignada, resolveram esquecer o assunto. Quando a guerra começasse, os soldados iriam lamentar. Mas aí, seria tarde demais.
Para acompanhar a história desde o início:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III
As ajudantes prometidas pelo conselheiro de Islamal chegaram no final da tarde ao quarto. Traziam água quente, sais de banho, pétalas de rosa, escovas de cabelo e de dentes, henna para pintar as mãos e os pés da rainha, khol para seus olhos e uma mistura carmim para os lábios. Numa caixa, que Isdora reconheceu como sendo a sua própria caixa de jóias, havia braceletes, tornozeleiras, anéis, brincos e colares de pedras preciosas.
A rainha olhava as criadas indo e vindo pelo quarto, abrindo espaço para preparar o seu banho. Ela não ofereceu resistência quando as mulheres a tiraram da cama, despiram suas roupas sujas e começaram a esfregar a pele, lavar seus cabelos com água de rosas. Também se comportou bem enquanto as criadas desembaraçavam os longos cabelos negros e refaziam as tranças, enfeitando-as com pedrinhas. Estendeu as mãos e os pés para a pintura de henna e deixou-se maquiar como uma boneca, sem reclamar, sem resistir.
No final, quando estava belíssima no vestido novo enviado pelo seu seqüestrador, a rainha Isdora aguardou que a porta do seu quarto-prisão fosse aberta. E, quando isso aconteceu, ela correu. Correu como se tivesse asas nos pés, correu como se não fosse uma rainha, mas uma gazela fugindo de um tigre. Os guardas que foram mandados para levá-la até o jantar de comemoração corriam atrás da rainha, mas eram pesados, com armaduras de couro, capacetes, escudos e lanças. Isdora, em seu vestido leve e esvoaçante, pequena e magra, corria pelo palácio como um fantasma.
Conseguiu sair para um dos jardins. Misturou-se às flores e arbustos. Ficou escondida, arfando, recuperando o fôlego. A rainha conhecia cada um daqueles jardins, conhecia as propriedades de cada uma das plantas. As que curavam, as que matavam, as que lançavam quem as comesse em um sono eterno e uma plantinha em especial, capaz de transformar quem a comia em pedra. Recolheu um pedaço da planta venenosa para matar, um pedaço do seu antídoto para curar e uma muda inteira da que servia para transformar gente em pedra e guardou tudo sob as vestes.
Depois, calmamente, saiu do meio das flores e arbustos e, com passos decididos, caminhou até o grande salão real, onde sabia que Islamal a aguardava. A rainha tinha certeza que os guardas e as criadas não comentariam com Islamal a sua desabalada carreira pelos jardins. Os próprios guardas, atônitos, não entendiam direito o que a rainha tinha ido fazer no meio das árvores. Se ela queria fugir, porque não correu para o portão?
Pensaram que Isdora tinha enlouquecido depois de meses trancada. Todos que trabalhavam para Islamal sabiam que seriam castigados se contassem a ele que por alguns minutos perderam a rainha num dos jardins e já que, a própria rainha agora caminhava calmamente em direção ao banquete, parecendo tão calma e tão resignada, resolveram esquecer o assunto. Quando a guerra começasse, os soldados iriam lamentar. Mas aí, seria tarde demais.
Para acompanhar a história desde o início:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III
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domingo, 14 de dezembro de 2008
As mil e uma aventuras do Príncipe Rajá
A Rainha prisioneira - PARTE III
Islamal nunca veio. Mandou um emissário, um dia muito cedo. O emissário entrou no quarto e puxou as cortinas vermelhas com muita força. Uma luz intensa invadiu o quarto e atingiu o rosto da rainha, que acordou esfregando os olhos que ardiam com a claridade. Isdora se assustou com a presença do emissário e, com medo, puxou as cobertas até a cabeça. Ficou lá embaixo, escondida sob a cabaninha de pano formada pelo lençol. “Se eu ficar aqui quietinha ele irá embora”, pensava a rainha.
O emissário pigarreou, como quem prepara a garganta antes de fazer um discurso ou anunciar alguma coisa muito importante. Pelas roupas que usava, Isdora imaginou que ele devia ser agora o conselheiro do rei Islamal. O homem também estava muito limpo e perfumado, o que fez a rainha se sentir a mais repugnante das criaturas. Suas tranças negras tinham há muito se desfeito e o cabelo estava embaraçado e com piolhos. As roupas cheiravam mal, depois de tantos dias sem ver água, sabão e sol. O emissário pigarreou de novo e, resignada, Isdora saiu debaixo da cabaninha de lençóis e levantou da cama.
- O rei supremo da Cidade de Ouro e Prata, Islamal – O Único convida a rainha Isdora para um jantar de comemoração pela sua ascensão ao trono. Criadas virão aos aposentos preparar vossa majestade para a ocasião. Diga-me, senhora, o que precisa que elas tragam.
Isdora não disse nada, embora a idéia de ter roupas limpas e comer um jantar decente não saísse da sua cabeça. “Então ele quer me comprar...”. Continuou olhando para o conselheiro como se ele fosse um sonho. “Se eu fingir que estou louca, talvez ele vá embora e diga ao seu amo para esquecer essa história de jantar”. Ela sibilou, fez uma careta para o conselheiro, cuspiu nele e se enfiou de novo embaixo dos lençóis.
- O truque de fingir que perdeu o juízo não vai funcionar majestade. A senhora está sendo vigiada e posso garantir que, pelas informações que recebo, a senhora tem mais juízo do que eu. Meu senhor Islamal imaginou que a senhora não iria colaborar, por isso, tomei a liberdade de providenciar um vestido para o evento desta noite, bem como sais de banho, pétalas de rosa para perfumar seus cabelos e criadas para ajudá-la. Elas virão logo depois do almoço.
O emissário fez uma reverência, deu duas leves batidinhas na porta do quarto-prisão da rainha Isdora e, quando uma fresta suficiente apenas para uma pessoa passar se espremendo foi aberta, ele saiu. Ao ouvir o clique da chave trancando a porta por fora, Isdora pulou da cama e se convenceu de que estava na hora de agir. “Preciso fugir daqui e descobrir o que houve com Rajá e Paxá”.
Para acompanhar o começo da história:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
Islamal nunca veio. Mandou um emissário, um dia muito cedo. O emissário entrou no quarto e puxou as cortinas vermelhas com muita força. Uma luz intensa invadiu o quarto e atingiu o rosto da rainha, que acordou esfregando os olhos que ardiam com a claridade. Isdora se assustou com a presença do emissário e, com medo, puxou as cobertas até a cabeça. Ficou lá embaixo, escondida sob a cabaninha de pano formada pelo lençol. “Se eu ficar aqui quietinha ele irá embora”, pensava a rainha.
O emissário pigarreou, como quem prepara a garganta antes de fazer um discurso ou anunciar alguma coisa muito importante. Pelas roupas que usava, Isdora imaginou que ele devia ser agora o conselheiro do rei Islamal. O homem também estava muito limpo e perfumado, o que fez a rainha se sentir a mais repugnante das criaturas. Suas tranças negras tinham há muito se desfeito e o cabelo estava embaraçado e com piolhos. As roupas cheiravam mal, depois de tantos dias sem ver água, sabão e sol. O emissário pigarreou de novo e, resignada, Isdora saiu debaixo da cabaninha de lençóis e levantou da cama.
- O rei supremo da Cidade de Ouro e Prata, Islamal – O Único convida a rainha Isdora para um jantar de comemoração pela sua ascensão ao trono. Criadas virão aos aposentos preparar vossa majestade para a ocasião. Diga-me, senhora, o que precisa que elas tragam.
Isdora não disse nada, embora a idéia de ter roupas limpas e comer um jantar decente não saísse da sua cabeça. “Então ele quer me comprar...”. Continuou olhando para o conselheiro como se ele fosse um sonho. “Se eu fingir que estou louca, talvez ele vá embora e diga ao seu amo para esquecer essa história de jantar”. Ela sibilou, fez uma careta para o conselheiro, cuspiu nele e se enfiou de novo embaixo dos lençóis.
- O truque de fingir que perdeu o juízo não vai funcionar majestade. A senhora está sendo vigiada e posso garantir que, pelas informações que recebo, a senhora tem mais juízo do que eu. Meu senhor Islamal imaginou que a senhora não iria colaborar, por isso, tomei a liberdade de providenciar um vestido para o evento desta noite, bem como sais de banho, pétalas de rosa para perfumar seus cabelos e criadas para ajudá-la. Elas virão logo depois do almoço.
O emissário fez uma reverência, deu duas leves batidinhas na porta do quarto-prisão da rainha Isdora e, quando uma fresta suficiente apenas para uma pessoa passar se espremendo foi aberta, ele saiu. Ao ouvir o clique da chave trancando a porta por fora, Isdora pulou da cama e se convenceu de que estava na hora de agir. “Preciso fugir daqui e descobrir o que houve com Rajá e Paxá”.
Para acompanhar o começo da história:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O menino dos dinossauros
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham os desenhos. Procurou, perguntou, desenhou... Do seu lápis disse a avó. Da sua cabeça, disse a tia. Da sua alma, poetou a mãe. Nada disso, vêm de um reino distante, lá longe, depois daquela curva, mais para lá no vento, nas fronteiras do rei do sonhar.
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham os versos. Procurou, perguntou, leu... Do poeta, disse a avó. De um louco alquimista de palavras, disse a tia. Da sua alma, suspirou a mãe. Nada disso, vêm de uma caixa escondida no armário, que fica longe, depois daquela curva, mais para lá no vento, no quarto do palácio do rei do sonhar.
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham as histórias. Procurou, perguntou, escreveu... Do livro, disse a avó. Da ponta da varinha da bruxa, disse a tia delirante. Da sua alma, encantou-se a mãe. Nada disso, as histórias não vêm de lugar nenhum, estão em toda parte.
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham os versos. Procurou, perguntou, leu... Do poeta, disse a avó. De um louco alquimista de palavras, disse a tia. Da sua alma, suspirou a mãe. Nada disso, vêm de uma caixa escondida no armário, que fica longe, depois daquela curva, mais para lá no vento, no quarto do palácio do rei do sonhar.
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham as histórias. Procurou, perguntou, escreveu... Do livro, disse a avó. Da ponta da varinha da bruxa, disse a tia delirante. Da sua alma, encantou-se a mãe. Nada disso, as histórias não vêm de lugar nenhum, estão em toda parte.
domingo, 30 de novembro de 2008
As mil e uma aventuras do Príncipa Rajá
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha Isdora matava o tempo no cativeiro cantando. Desde as músicas da sua infância até aquelas que embalavam o sono de Rajá quando era bebê. Ela também marcava risquinhos na parede atrás da cama, um para cada vez em que as cortinas vermelhas filtravam uma luz de pesadelo, cada vez que o sol nascia. Cortinas vermelhas não combinam com o amanhecer, pensava a rainha, o quarto fica eternamente em penumbra e viver na penumbra é muito triste.
A rainha sentia falta de andar ao ar livre. Ela gostava de sair de manhã cedo, passear até o mercado em uma das praças do palácio-cidade. Nessas ocasiões, quando Rajá batia em seus joelhos, ela o ensinava os nomes das frutas. Lembrava com saudade que ele fazia caretas muito engraçadas quando provava uma fruta de sabor mais ácido. “Onde estará você Rajá?”, suspirava a rainha prisioneira.
Os dias no cativeiro são muito lentos, se arrastam amargamente e cada minuto parece levar séculos. Isdora contava as horas através das três refeições que recebia. Não era muita coisa o que seu algoz mandava para ela comer. A ceia era muito magra, dura, ressecada e com gosto de bolor, mas ela comia tudo. Sabia que não podia enfraquecer, porque se ficasse vulnerável, seria presa fácil para Islamal. As sombras projetadas pelas cortinas vermelhas também mudavam de posição de acordo com o avançar do dia e assim, Isdora calculava o seu tempo de prisão.
O mais angustiante era ficar imaginando o que teria acontecido com Rajá e com Paxá. Há dias ela não falava com ninguém. Da última vez que viu outra pessoa no quarto-prisão, tinha feito um risco bem grande na parede e colocado uma letra G, de gente, ao lado do risco. Era uma mocinha miúda, que entrou nos aposentados trazendo uma bacia de água para a rainha tomar banho. A menina entrou de cabeça baixa, colocou a bacia no chão ao lado da cama e saiu. Isdora tentou puxar conversa, perguntar a ela se sabia alguma coisa sobre o paradeiro do marido e do filho, mas a mocinha apenas colocara o dedo sobre os lábios, naquele gesto de pedir silêncio, e saiu do quarto.
Vinte risquinhos depois da visita da menina, Isdora sentia que precisava de outro banho. Era muito incômodo ficar sem lavar os cabelos tanto tempo. Sua pele também coçava muito e no quarto havia pulgas, certamente atraídas pelo cheiro de suor.
“Onde está Islamal? Tem quase dois meses que estou aqui presa e ele ainda não apareceu. O que ele estará fazendo? E o povo da cidade, o que ele disse ao povo para explicar a ausência da família real?”, a rainha pensava, pensava, até a cabeça doer ou ela sentir que estava prestes a ficar louca. “Não Isdora, você tem de agüentar! Nada de ficar delirando”, dizia a si mesma. “Islamal virá e quando ele chegar, estarei esperando e ele vai se arrepender...”
Para acompanhar o começo da história:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha Isdora matava o tempo no cativeiro cantando. Desde as músicas da sua infância até aquelas que embalavam o sono de Rajá quando era bebê. Ela também marcava risquinhos na parede atrás da cama, um para cada vez em que as cortinas vermelhas filtravam uma luz de pesadelo, cada vez que o sol nascia. Cortinas vermelhas não combinam com o amanhecer, pensava a rainha, o quarto fica eternamente em penumbra e viver na penumbra é muito triste.
A rainha sentia falta de andar ao ar livre. Ela gostava de sair de manhã cedo, passear até o mercado em uma das praças do palácio-cidade. Nessas ocasiões, quando Rajá batia em seus joelhos, ela o ensinava os nomes das frutas. Lembrava com saudade que ele fazia caretas muito engraçadas quando provava uma fruta de sabor mais ácido. “Onde estará você Rajá?”, suspirava a rainha prisioneira.
Os dias no cativeiro são muito lentos, se arrastam amargamente e cada minuto parece levar séculos. Isdora contava as horas através das três refeições que recebia. Não era muita coisa o que seu algoz mandava para ela comer. A ceia era muito magra, dura, ressecada e com gosto de bolor, mas ela comia tudo. Sabia que não podia enfraquecer, porque se ficasse vulnerável, seria presa fácil para Islamal. As sombras projetadas pelas cortinas vermelhas também mudavam de posição de acordo com o avançar do dia e assim, Isdora calculava o seu tempo de prisão.
O mais angustiante era ficar imaginando o que teria acontecido com Rajá e com Paxá. Há dias ela não falava com ninguém. Da última vez que viu outra pessoa no quarto-prisão, tinha feito um risco bem grande na parede e colocado uma letra G, de gente, ao lado do risco. Era uma mocinha miúda, que entrou nos aposentados trazendo uma bacia de água para a rainha tomar banho. A menina entrou de cabeça baixa, colocou a bacia no chão ao lado da cama e saiu. Isdora tentou puxar conversa, perguntar a ela se sabia alguma coisa sobre o paradeiro do marido e do filho, mas a mocinha apenas colocara o dedo sobre os lábios, naquele gesto de pedir silêncio, e saiu do quarto.
Vinte risquinhos depois da visita da menina, Isdora sentia que precisava de outro banho. Era muito incômodo ficar sem lavar os cabelos tanto tempo. Sua pele também coçava muito e no quarto havia pulgas, certamente atraídas pelo cheiro de suor.
“Onde está Islamal? Tem quase dois meses que estou aqui presa e ele ainda não apareceu. O que ele estará fazendo? E o povo da cidade, o que ele disse ao povo para explicar a ausência da família real?”, a rainha pensava, pensava, até a cabeça doer ou ela sentir que estava prestes a ficar louca. “Não Isdora, você tem de agüentar! Nada de ficar delirando”, dizia a si mesma. “Islamal virá e quando ele chegar, estarei esperando e ele vai se arrepender...”
Para acompanhar o começo da história:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
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sábado, 8 de novembro de 2008
Retomando o fio da meada...
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
- Quando a história do príncipe Rajá vai terminar?
- Não sei ainda, estou pensando nos rumos da história.
- O minhocão gigante já apareceu?
- E tem minhocão gigante é?
- Tem sim, na história original tinha um minhocão quando ele visitava o reino embaixo da terra.
- Aaahh, é mesmo. Ainda não cheguei nessa parte...
- Quando vai chegar?
- Não tenho a menor idéia, a história é bem grande.
- Mas foi você quem inventou o princípe Rajá, devia saber quando termina!
- Eu inventei, mas agora acho que o príncipe Rajá se inventou sozinho.
- Não pode, ele não existe - pausa para pensar - Existe?
- Existe, na minha imaginação, na sua e na de quem ler o blog.
- Hummm...entendi, então ele está de férias! Só pode ser isso para essa história demorar tanto...
Para quem não lembra de Rajá, eis os links, desde o 1º post.
I- - A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
- Quando a história do príncipe Rajá vai terminar?
- Não sei ainda, estou pensando nos rumos da história.
- O minhocão gigante já apareceu?
- E tem minhocão gigante é?
- Tem sim, na história original tinha um minhocão quando ele visitava o reino embaixo da terra.
- Aaahh, é mesmo. Ainda não cheguei nessa parte...
- Quando vai chegar?
- Não tenho a menor idéia, a história é bem grande.
- Mas foi você quem inventou o princípe Rajá, devia saber quando termina!
- Eu inventei, mas agora acho que o príncipe Rajá se inventou sozinho.
- Não pode, ele não existe - pausa para pensar - Existe?
- Existe, na minha imaginação, na sua e na de quem ler o blog.
- Hummm...entendi, então ele está de férias! Só pode ser isso para essa história demorar tanto...
Para quem não lembra de Rajá, eis os links, desde o 1º post.
I- - A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Conte-me um conto...
Os camundongos brancos agradecem. Os bebês, nem tanto assim...
BOLINHOS DE BEBÊ
Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.
Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá. Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.
Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.
Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça, e, nas veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.
Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?
Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que...
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.
Vamos bolar alguma coisa.
(Neil Gaiman, in Fumaças e Espelhos, via lettera, 2004)
BOLINHOS DE BEBÊ
Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.
Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá. Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.
Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.
Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça, e, nas veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.
Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?
Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que...
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.
Vamos bolar alguma coisa.
(Neil Gaiman, in Fumaças e Espelhos, via lettera, 2004)
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Nicholas Era...
Um conto de Natal por Neil Gaiman
mais velho que o pecado e sua barba não podia ficar mais branca. Ele queria morrer.
Os anões nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas chilreavam na deles e realizavam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando nas fábricas.
Uma vez por ano, forçavam-no, aos prantos e sob protestos, pela Noite Sem Fim. Durante a jornada, permaneceria ao lado de cada criança do mundo, deixando um dos presentes invisíveis dos anões ao pé da cama.
As crianças dormiam, congeladas no tempo.
Ele invejava Prometeu, Loki, Sísifo e Judas. Seu castigo era mais sombrio.
Ho.
Ho.
Ho.
mais velho que o pecado e sua barba não podia ficar mais branca. Ele queria morrer.
Os anões nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas chilreavam na deles e realizavam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando nas fábricas.
Uma vez por ano, forçavam-no, aos prantos e sob protestos, pela Noite Sem Fim. Durante a jornada, permaneceria ao lado de cada criança do mundo, deixando um dos presentes invisíveis dos anões ao pé da cama.
As crianças dormiam, congeladas no tempo.
Ele invejava Prometeu, Loki, Sísifo e Judas. Seu castigo era mais sombrio.
Ho.
Ho.
Ho.
sábado, 9 de agosto de 2008
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
O rei destronado (final)
A porta de madeira foi aberta com um rangido, o suficiente para que uma mão colocasse a jarra de água e o prato de comida para o prisioneiro. O rei Paxá, recostado na parede cinzenta e coberta de limo, repassava pela milionésima vez os últimos acontecimentos antes de acordar acorrentado em um calabouço que ele acreditava ficar no subsolo do seu próprio palácio. O barulho da porta de madeira sendo arrastada no chão de pedra chamou sua atenção. Ele tentou levantar-se, mas estava muito fraco. Arrastando-se, chegou até a comida e a água.
Mal tinha colocado o primeiro bocado na boca, a porta da cela se abriu e Islamal entrou. Ao ver o irmão, o rei Paxá sentiu-se muito feliz, queria até levantar para dar um abraço no seu conselheiro, mas as correntes pesadas e a fraqueza nas pernas não ajudavam muito. O olhar que Islamal lançou ao rei era tão inexpressivo que Paxá temeu pelo pior. “Será que ele foi enfeitiçado?” Arrastando-se de volta para o canto do calabouço e tentando se apoiar na parede para levantar, o prisioneiro perguntou: “Islamal, meu irmão, o que está acontecendo? Onde estão Rajá e Isdora? O que aconteceu com você? Por que estou aqui preso nesse calabouço? Onde estão os súditos da cidade...”
Islamal ergueu a magra e pálida mão direita, pedindo silêncio ao rei. Ficou estudando a fisionomia transtornada do irmão, a barba por fazer, as roupas sujas e rasgadas, as faces encovadas e as olheiras profundas de quem não come e não dorme direito faz muito tempo. Sentiu-se recompensado, vingado pelos anos em que viveu a sombra de Paxá, como o segundo homem do reino, o vizir, o conselheiro, e não como o governante, como aquele que recebia as homenagens. Enquanto Paxá era aclamado pelos súditos, amado por uma bela rainha e adorado por um filho muito esperto, Islamal tinha de se contentar em assistir toda aquela felicidade. Era demais para alguém como ele, que se julgava o mais inteligente dos homens, o mais poderoso dos magos. Vendo o ex-rei da Cidade de Ouro e Prata reduzido à condição de prisioneiro, beirando a indigência, todos os anos de mudo e silencioso ressentimento deixaram de pesar sobre a sua alma corroída pela inveja.
A vontade de Islamal era contar ao irmão, em detalhes, como o seu plano tinha dado certo. Como havia seduzido o príncipe Rajá com as aulas de magia, como levou o menino a criar uma poção do sono que fez o rei e a rainha dormirem por semanas. Como havia encorajado Rajá a viajar para conhecer a Floresta Sem Fim e aproveitando a ausência do príncipe, trancado o rei naquele calabouço. Queria também dizer ao irmão que finalmente, a rainha Isdora, que sempre o desprezara, era agora sua prisioneira. Que em breve, pretendia casar-se com ela, assim que comunicasse aos súditos, todos reduzidos à escravidão, que o seu bom rei havia morrido. Islamal pretendia ainda atormentar o rei descrevendo as mil e uma formas como Rajá, um menino de onze anos incompletos, poderia ter morrido, sozinho e abandonado, vitima das armadilhas da Floresta Sem Fim. Para finalizar sua cruel narrativa, o vil conselheiro pretendia ainda dizer de que forma iria transformar a Cidade de Ouro e Prata na sede do seu grande reino do mal, espalhando o terror entre todos os povos vizinhos.
Mas ele não disse nada disso. A história que ele contou foi assim:
- Paxá, meu irmão, que bom que você está vivo!! Levei dias procurando-o em todos os calabouços do Palácio de Ouro e Prata. Você não tem idéia do que aconteceu. Uma horda de invasores terríveis dominou a cidade. O príncipe e a rainha foram feitos prisioneiros. Só me deixaram vivo porque eu sou um mago que tem grandes poderes, como você bem sabe. Estou empenhado em descobrir para onde Rajá e Isdora foram levados e assim, ajudar vocês três a fugirem daqui. O líder da horda de invasores já anunciou que vai matar o menino e que pretende desposar a rainha. Ele também pretende deixar você apodrecer aqui para sempre e a cidade está toda arrasada, sem jardins, sem alegria. O povo se esconde com medo dos invasores. Tentarei voltar aqui outra vez para vê-lo e ajudá-lo a reencontrar sua família...
O rei Paxá, apesar das pernas fracas e das correntes pesadas, ergueu-se de um salto e alcançou Islamal quando o mago se aproximou da porta, com a intenção de ir embora.
- Meu irmão, o que está acontecendo? Que história louca é esta? Onde estão minha mulher e meu filho?... – as lágrimas escorriam do rosto do rei, que segurava as roupas do irmão, sacudia-o, implorava uma explicação. Era difícil para Islamal sustentar a farsa, manter seu teatro e fingir que a cidade estava dominada por inimigos desconhecidos. Ver o grande rei Paxá chorando era alegria demais para um só dia. Mas ele se controlou, escondeu a felicidade por trás do mesmo olhar inexpressivo que o ingênuo rei Paxá interpretava como sendo de piedade.
- Paxá, meu irmão e soberano, a quem devo respeito e obediência, também sou prisioneiro dos invasores. Eles me vigiam dia e noite, não posso ficar muito tempo aqui, ou eles vão desconfiar e também me colocarão num calabouço. Se isto acontecer, acabam-se as nossas esperanças de salvar a cidade e principalmente, salvar a sua família. Voltarei assim que puder com mais noticias.
Soltando as vestes das mãos tremulas do rei, Islamal deu uma batida na porta do calabouço, que se abriu para que ele saísse. O rei Paxá, que agora sabia ter se tornado um soberano destronado, ficou de pé, olhando a porta de madeira pela qual sua única esperança de escapar daquele pesadelo tinha acabado de sair.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daqueles de 01 e 02 de agosto).
A porta de madeira foi aberta com um rangido, o suficiente para que uma mão colocasse a jarra de água e o prato de comida para o prisioneiro. O rei Paxá, recostado na parede cinzenta e coberta de limo, repassava pela milionésima vez os últimos acontecimentos antes de acordar acorrentado em um calabouço que ele acreditava ficar no subsolo do seu próprio palácio. O barulho da porta de madeira sendo arrastada no chão de pedra chamou sua atenção. Ele tentou levantar-se, mas estava muito fraco. Arrastando-se, chegou até a comida e a água.
Mal tinha colocado o primeiro bocado na boca, a porta da cela se abriu e Islamal entrou. Ao ver o irmão, o rei Paxá sentiu-se muito feliz, queria até levantar para dar um abraço no seu conselheiro, mas as correntes pesadas e a fraqueza nas pernas não ajudavam muito. O olhar que Islamal lançou ao rei era tão inexpressivo que Paxá temeu pelo pior. “Será que ele foi enfeitiçado?” Arrastando-se de volta para o canto do calabouço e tentando se apoiar na parede para levantar, o prisioneiro perguntou: “Islamal, meu irmão, o que está acontecendo? Onde estão Rajá e Isdora? O que aconteceu com você? Por que estou aqui preso nesse calabouço? Onde estão os súditos da cidade...”
Islamal ergueu a magra e pálida mão direita, pedindo silêncio ao rei. Ficou estudando a fisionomia transtornada do irmão, a barba por fazer, as roupas sujas e rasgadas, as faces encovadas e as olheiras profundas de quem não come e não dorme direito faz muito tempo. Sentiu-se recompensado, vingado pelos anos em que viveu a sombra de Paxá, como o segundo homem do reino, o vizir, o conselheiro, e não como o governante, como aquele que recebia as homenagens. Enquanto Paxá era aclamado pelos súditos, amado por uma bela rainha e adorado por um filho muito esperto, Islamal tinha de se contentar em assistir toda aquela felicidade. Era demais para alguém como ele, que se julgava o mais inteligente dos homens, o mais poderoso dos magos. Vendo o ex-rei da Cidade de Ouro e Prata reduzido à condição de prisioneiro, beirando a indigência, todos os anos de mudo e silencioso ressentimento deixaram de pesar sobre a sua alma corroída pela inveja.
A vontade de Islamal era contar ao irmão, em detalhes, como o seu plano tinha dado certo. Como havia seduzido o príncipe Rajá com as aulas de magia, como levou o menino a criar uma poção do sono que fez o rei e a rainha dormirem por semanas. Como havia encorajado Rajá a viajar para conhecer a Floresta Sem Fim e aproveitando a ausência do príncipe, trancado o rei naquele calabouço. Queria também dizer ao irmão que finalmente, a rainha Isdora, que sempre o desprezara, era agora sua prisioneira. Que em breve, pretendia casar-se com ela, assim que comunicasse aos súditos, todos reduzidos à escravidão, que o seu bom rei havia morrido. Islamal pretendia ainda atormentar o rei descrevendo as mil e uma formas como Rajá, um menino de onze anos incompletos, poderia ter morrido, sozinho e abandonado, vitima das armadilhas da Floresta Sem Fim. Para finalizar sua cruel narrativa, o vil conselheiro pretendia ainda dizer de que forma iria transformar a Cidade de Ouro e Prata na sede do seu grande reino do mal, espalhando o terror entre todos os povos vizinhos.
Mas ele não disse nada disso. A história que ele contou foi assim:
- Paxá, meu irmão, que bom que você está vivo!! Levei dias procurando-o em todos os calabouços do Palácio de Ouro e Prata. Você não tem idéia do que aconteceu. Uma horda de invasores terríveis dominou a cidade. O príncipe e a rainha foram feitos prisioneiros. Só me deixaram vivo porque eu sou um mago que tem grandes poderes, como você bem sabe. Estou empenhado em descobrir para onde Rajá e Isdora foram levados e assim, ajudar vocês três a fugirem daqui. O líder da horda de invasores já anunciou que vai matar o menino e que pretende desposar a rainha. Ele também pretende deixar você apodrecer aqui para sempre e a cidade está toda arrasada, sem jardins, sem alegria. O povo se esconde com medo dos invasores. Tentarei voltar aqui outra vez para vê-lo e ajudá-lo a reencontrar sua família...
O rei Paxá, apesar das pernas fracas e das correntes pesadas, ergueu-se de um salto e alcançou Islamal quando o mago se aproximou da porta, com a intenção de ir embora.
- Meu irmão, o que está acontecendo? Que história louca é esta? Onde estão minha mulher e meu filho?... – as lágrimas escorriam do rosto do rei, que segurava as roupas do irmão, sacudia-o, implorava uma explicação. Era difícil para Islamal sustentar a farsa, manter seu teatro e fingir que a cidade estava dominada por inimigos desconhecidos. Ver o grande rei Paxá chorando era alegria demais para um só dia. Mas ele se controlou, escondeu a felicidade por trás do mesmo olhar inexpressivo que o ingênuo rei Paxá interpretava como sendo de piedade.
- Paxá, meu irmão e soberano, a quem devo respeito e obediência, também sou prisioneiro dos invasores. Eles me vigiam dia e noite, não posso ficar muito tempo aqui, ou eles vão desconfiar e também me colocarão num calabouço. Se isto acontecer, acabam-se as nossas esperanças de salvar a cidade e principalmente, salvar a sua família. Voltarei assim que puder com mais noticias.
Soltando as vestes das mãos tremulas do rei, Islamal deu uma batida na porta do calabouço, que se abriu para que ele saísse. O rei Paxá, que agora sabia ter se tornado um soberano destronado, ficou de pé, olhando a porta de madeira pela qual sua única esperança de escapar daquele pesadelo tinha acabado de sair.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daqueles de 01 e 02 de agosto).
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sábado, 2 de agosto de 2008
O rei destronado (continuação)
O rei Paxá começou a gritar, gritou feito um louco durante horas, gritou até perder a voz, ameaçou, chorou, esmurrou a parede cinzenta e cheia de limo, tentou arrancar as correntes, mas isso só serviu para ferir-lhe os tornozelos. Chamou por Rajá, por Isdora, por Islamal, por qualquer pessoa, até ficar esgotado e rouco. Ninguém veio atendê-lo naquele dia e nem no dia seguinte e nem no dia depois do seguinte.
O calabouço era frio, úmido e escuro. Uma janelinha minúscula deixava à mostra um quadradinho de céu suficiente para o rei saber se era dia ou noite, mas ele não sabia em que dia da semana estava, nem em que mês. Não tinha certeza se tinha dormido apenas uma noite antes de acordar na prisão ou se tinha dormido infinitas noites e, de repente, acordado para um pesadelo tão horrível.
Sentia fome e imaginava que, a menos que estivesse sob algum encantamento, não poderia ter dormido semanas ou meses, senão teria morrido de fome e sede. No entanto, sentia-se fraco e seus pensamentos eram os mais desencontrados e confusos. “A cidade foi invadida? Mataram minha família? Mataram todos e me deixaram aqui para morrer nesse porão? Mas quem invadiria a minha cidade? Não tenho inimigos!!”
Quanto mais pensava que alguma coisa terrível tinha acontecido com a esposa, o filho e os súditos, mais desesperado ficava o rei. Sua esperança era encontrar Islamal, mas em seus delírios imaginava que o irmão estava morto. Quando esse medo tão grande de ter perdido toda a família vinha, geralmente quando ficava muito escuro e não dava mais para ver o quadradinho de céu na janelinha do calabouço, o rei Paxá abraçava os joelhos e chorava.
Lamentava-se e também brigava consigo mesmo por nunca ter feito amizade com os reinos vizinhos. Se ele não tinha inimigos por viver isolado no seu palácio-cidade dourado, também não tinha amigos pelo mesmo motivo. Nessa hora de dificuldade, nenhum vizinho viria ajudar porque a Cidade de Ouro e Prata ficava longe demais de qualquer outro reino. Sem amigos, além da própria família e dos súditos, que ele julgava mortos, ninguém sentiria a falta do rei e por isso, não tentariam resgatá-lo. Ele estava condenado a viver no calabouço para sempre ou morrer de fome em mais alguns dias.
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O calabouço era frio, úmido e escuro. Uma janelinha minúscula deixava à mostra um quadradinho de céu suficiente para o rei saber se era dia ou noite, mas ele não sabia em que dia da semana estava, nem em que mês. Não tinha certeza se tinha dormido apenas uma noite antes de acordar na prisão ou se tinha dormido infinitas noites e, de repente, acordado para um pesadelo tão horrível.
Sentia fome e imaginava que, a menos que estivesse sob algum encantamento, não poderia ter dormido semanas ou meses, senão teria morrido de fome e sede. No entanto, sentia-se fraco e seus pensamentos eram os mais desencontrados e confusos. “A cidade foi invadida? Mataram minha família? Mataram todos e me deixaram aqui para morrer nesse porão? Mas quem invadiria a minha cidade? Não tenho inimigos!!”
Quanto mais pensava que alguma coisa terrível tinha acontecido com a esposa, o filho e os súditos, mais desesperado ficava o rei. Sua esperança era encontrar Islamal, mas em seus delírios imaginava que o irmão estava morto. Quando esse medo tão grande de ter perdido toda a família vinha, geralmente quando ficava muito escuro e não dava mais para ver o quadradinho de céu na janelinha do calabouço, o rei Paxá abraçava os joelhos e chorava.
Lamentava-se e também brigava consigo mesmo por nunca ter feito amizade com os reinos vizinhos. Se ele não tinha inimigos por viver isolado no seu palácio-cidade dourado, também não tinha amigos pelo mesmo motivo. Nessa hora de dificuldade, nenhum vizinho viria ajudar porque a Cidade de Ouro e Prata ficava longe demais de qualquer outro reino. Sem amigos, além da própria família e dos súditos, que ele julgava mortos, ninguém sentiria a falta do rei e por isso, não tentariam resgatá-lo. Ele estava condenado a viver no calabouço para sempre ou morrer de fome em mais alguns dias.
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sexta-feira, 1 de agosto de 2008
XI – O rei destronado (parte 1)
O rei Paxá acordou com dor de cabeça. Também estava muito tonto e enjoado. Ele não se lembrava na última vez que sentiu dor de cabeça. Aliás, lembrava sim, nunca teve uma gripe, resfriado, dor de barriga, calos, chulé, piolho e muito menos enjôo. Apesar de sentir-se doente, coisa que ele tinha certeza que nunca tinha ficado na vida, o que chamou a atenção do rei naquela manhã não era o seu súbito e esquisito mal-estar. Também não notou que a rainha Isdora não estava ao seu lado, como deveria estar e esteve ao longo dos últimos 15 anos. Naquele momento, o rei não sentiu falta da sua rainha. O que estava muito errado, muito fora de ordem, era a falta de pãozinho de mel com geléia e de um menino de turbante com pedrinhas azuis e sapatinhos com as pontas viradas para cima, sorrindo e desejando bom dia. “Onde está o meu filho?”
Enjoado, sem filho, sem esposa – finalmente ele percebeu que a rainha Isdora também tinha sumido -, o rei Paxá notou que estava sem quarto. Depois de piscar algumas vezes, de sacudir a cabeça, coçar os olhos e respirar fundo contando até dez, ele finalmente percebeu que havia alguma coisa errada, misteriosa e sinistra acontecendo. ”Onde está o meu filho? Cadê a minha esposa? Onde eu estou?”
Sem saber por onde começar a procurar, sem saber o que pensar, o rei quase entrou em desespero, mas de repente lembrou-se do seu sábio conselheiro, e meio-irmão, Islamal. “ Islamal vai saber o que aconteceu, onde estão minha mulher e meu filho, porque eu estou aqui nesse calabouço e porque não me trouxeram café da manhã ainda. Tudo o que eu preciso fazer é me levantar desse chão duro, ir até aquela porta de madeira ali e chamar o meu conselheiro...”
Não foi tão fácil. A primeira dificuldade encontrada pelo rei, além da barriga roncando sem o desjejum, foi que ele descobriu que estava amarrado. Pior, estava acorrentado pelos tornozelos a uma parede de pedra cinzenta e manchada de limo. A outra dificuldade é que o lugar da sua prisão parecia deserto, inóspito, sem uma alma viva a quem pedir socorro, nem moscas zumbiam na cela. “Que tipo de brincadeira é essa?” – pensava o rei, embora lá no fundo soubesse que não era brincadeira nenhuma. Ele estava em apuros e se o rei estava em apuros tão sérios, isso significava que a rainha e o príncipe também corriam perigo. Significava ainda mais, a sua Cidade de Ouro e Prata, cheia de beleza e de paz, estava ameaçada.
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Enjoado, sem filho, sem esposa – finalmente ele percebeu que a rainha Isdora também tinha sumido -, o rei Paxá notou que estava sem quarto. Depois de piscar algumas vezes, de sacudir a cabeça, coçar os olhos e respirar fundo contando até dez, ele finalmente percebeu que havia alguma coisa errada, misteriosa e sinistra acontecendo. ”Onde está o meu filho? Cadê a minha esposa? Onde eu estou?”
Sem saber por onde começar a procurar, sem saber o que pensar, o rei quase entrou em desespero, mas de repente lembrou-se do seu sábio conselheiro, e meio-irmão, Islamal. “ Islamal vai saber o que aconteceu, onde estão minha mulher e meu filho, porque eu estou aqui nesse calabouço e porque não me trouxeram café da manhã ainda. Tudo o que eu preciso fazer é me levantar desse chão duro, ir até aquela porta de madeira ali e chamar o meu conselheiro...”
Não foi tão fácil. A primeira dificuldade encontrada pelo rei, além da barriga roncando sem o desjejum, foi que ele descobriu que estava amarrado. Pior, estava acorrentado pelos tornozelos a uma parede de pedra cinzenta e manchada de limo. A outra dificuldade é que o lugar da sua prisão parecia deserto, inóspito, sem uma alma viva a quem pedir socorro, nem moscas zumbiam na cela. “Que tipo de brincadeira é essa?” – pensava o rei, embora lá no fundo soubesse que não era brincadeira nenhuma. Ele estava em apuros e se o rei estava em apuros tão sérios, isso significava que a rainha e o príncipe também corriam perigo. Significava ainda mais, a sua Cidade de Ouro e Prata, cheia de beleza e de paz, estava ameaçada.
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