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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

As mil e uma aventuras do príncipe Rajá

XIII - O aprendiz de feiticeira

A jibóia Hamida dormia enroscada em uma árvore. Estava bem mais gorda do que Rajá lembrava. Ao tocar a pele da cobra, ela virou a cabeça e fixou os olhos muito brilhantes no menino. Após reconhecer o dono, deslizou pelo seu braço, até enrolar-se na cintura do garoto. Rajá cambaleou para trás, a cobra estava realmente muito mais pesada do que ele conseguia carregar. “Não aperte muito minha amiga, ou você vai quebrar os meus ossos”, pensava enquanto levava Hamida para a sala de visitas, na casa da feiticeira Ishstar.

A moça de cabelos vermelhos, olhos verdes profundos como as árvores da Floresta Sem Fim e que, apesar de ter o mesmo cheiro de sândalo e alfazema da rainha Isdora, era mais jovem, mais alta e “muito mais bonita”- Rajá se envergonhava em pensar - que a rainha da Cidade de Ouro e Prata, aguardava o menino, sentada sobre um tapete dourado.

Rajá entrou e depositou Hamida em um cesto de vime, onde a jibóia se enroscou e voltou a dormir, como se fosse um cachorrinho de estimação. Diante da feiticeira, sobre o tapete dourado, havia algumas pedras negras que ela explicou ao seu aprendiz, chamavam-se runas e serviam para prever o futuro. “Mas as runas não dão respostas exatas Rajá, você precisará aprender a interpretá-las para encontrar o que precisa”.

O príncipe suspirou e revirou os olhos. Na Cidade de Ouro e prata, disse à feiticeira, havia homens e mulheres muito mais velhos que ela que sabiam ler as runas. Se era para aprender algo tão elementar, ele não precisaria deixar o conforto do seu reino, se aventurar dias e dias por uma floresta muito perigosa para encontrar a casa da feiticeira.

-Rajá, - disse pacientemente Ishstar - se você deseja ser meu aprendiz, primeiro, terá de esquecer que é um príncipe que mora em um palácio de ouro e prata; segundo, terá de aprender a obedecer e; terceiro, precisará esquecer completamente os rudimentos de magia que aquele seu tio perverso andou lhe ensinando. Agora, levante-se, guarde as runas naquela sacola de couro ali ao lado do cesto de Hamida e venha comigo.

O menino levantou-se de má vontade, guardou as pedras e seguiu a feiticeira para uma clareira na floresta. O príncipe se perguntava como ela sabia que Islamal havia ensinado alguns truques mágicos para ele...

Para acompanhar a história desde o início:

I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III
A rainha prisioneira - final

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Príncipe Rajá anda por aí aprendendo a viver...

O menino impaciente pergunta para a velha contadora de histórias por onde andará o príncipe Rajá, pois a história que a velha conta, só dá mesmo conta de outros assuntos, menos daquele que de fato interessa, um menino e sua enorme vontade de se aventurar.

- E o que é que te interessa, meu filho ? - quer saber a velha contadora de histórias.

- Ora, a aventura, a vida, o mundo grande enquanto sou pequeno e tão pequeno depois que eu for grande e percorrer cada canto dele.

- Mas você não acha meu filho, que um menino de 11 anos incompletos ainda precisa viver muito antes de se aventurar?

- Mas viver já é uma aventura fantástica, não é?

- É isso meu filho, Rajá está por ai, aprendendo a viver... - E a velha contadora de histórias, com suas mãos nodosas, ajeita o xale sobre os ombros e promete ao menino que em breve o príncipe irá enfrentar perigos nunca antes imaginados.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

As mil e uma aventuras do príncipe Rajá

A rainha prisioneira - Final

As ajudantes prometidas pelo conselheiro de Islamal chegaram no final da tarde ao quarto. Traziam água quente, sais de banho, pétalas de rosa, escovas de cabelo e de dentes, henna para pintar as mãos e os pés da rainha, khol para seus olhos e uma mistura carmim para os lábios. Numa caixa, que Isdora reconheceu como sendo a sua própria caixa de jóias, havia braceletes, tornozeleiras, anéis, brincos e colares de pedras preciosas.

A rainha olhava as criadas indo e vindo pelo quarto, abrindo espaço para preparar o seu banho. Ela não ofereceu resistência quando as mulheres a tiraram da cama, despiram suas roupas sujas e começaram a esfregar a pele, lavar seus cabelos com água de rosas. Também se comportou bem enquanto as criadas desembaraçavam os longos cabelos negros e refaziam as tranças, enfeitando-as com pedrinhas. Estendeu as mãos e os pés para a pintura de henna e deixou-se maquiar como uma boneca, sem reclamar, sem resistir.

No final, quando estava belíssima no vestido novo enviado pelo seu seqüestrador, a rainha Isdora aguardou que a porta do seu quarto-prisão fosse aberta. E, quando isso aconteceu, ela correu. Correu como se tivesse asas nos pés, correu como se não fosse uma rainha, mas uma gazela fugindo de um tigre. Os guardas que foram mandados para levá-la até o jantar de comemoração corriam atrás da rainha, mas eram pesados, com armaduras de couro, capacetes, escudos e lanças. Isdora, em seu vestido leve e esvoaçante, pequena e magra, corria pelo palácio como um fantasma.

Conseguiu sair para um dos jardins. Misturou-se às flores e arbustos. Ficou escondida, arfando, recuperando o fôlego. A rainha conhecia cada um daqueles jardins, conhecia as propriedades de cada uma das plantas. As que curavam, as que matavam, as que lançavam quem as comesse em um sono eterno e uma plantinha em especial, capaz de transformar quem a comia em pedra. Recolheu um pedaço da planta venenosa para matar, um pedaço do seu antídoto para curar e uma muda inteira da que servia para transformar gente em pedra e guardou tudo sob as vestes.

Depois, calmamente, saiu do meio das flores e arbustos e, com passos decididos, caminhou até o grande salão real, onde sabia que Islamal a aguardava. A rainha tinha certeza que os guardas e as criadas não comentariam com Islamal a sua desabalada carreira pelos jardins. Os próprios guardas, atônitos, não entendiam direito o que a rainha tinha ido fazer no meio das árvores. Se ela queria fugir, porque não correu para o portão?

Pensaram que Isdora tinha enlouquecido depois de meses trancada. Todos que trabalhavam para Islamal sabiam que seriam castigados se contassem a ele que por alguns minutos perderam a rainha num dos jardins e já que, a própria rainha agora caminhava calmamente em direção ao banquete, parecendo tão calma e tão resignada, resolveram esquecer o assunto. Quando a guerra começasse, os soldados iriam lamentar. Mas aí, seria tarde demais.

Para acompanhar a história desde o início:

I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II
A rainha prisioneira - parte III

domingo, 14 de dezembro de 2008

As mil e uma aventuras do Príncipe Rajá

A Rainha prisioneira - PARTE III

Islamal nunca veio. Mandou um emissário, um dia muito cedo. O emissário entrou no quarto e puxou as cortinas vermelhas com muita força. Uma luz intensa invadiu o quarto e atingiu o rosto da rainha, que acordou esfregando os olhos que ardiam com a claridade. Isdora se assustou com a presença do emissário e, com medo, puxou as cobertas até a cabeça. Ficou lá embaixo, escondida sob a cabaninha de pano formada pelo lençol. “Se eu ficar aqui quietinha ele irá embora”, pensava a rainha.

O emissário pigarreou, como quem prepara a garganta antes de fazer um discurso ou anunciar alguma coisa muito importante. Pelas roupas que usava, Isdora imaginou que ele devia ser agora o conselheiro do rei Islamal. O homem também estava muito limpo e perfumado, o que fez a rainha se sentir a mais repugnante das criaturas. Suas tranças negras tinham há muito se desfeito e o cabelo estava embaraçado e com piolhos. As roupas cheiravam mal, depois de tantos dias sem ver água, sabão e sol. O emissário pigarreou de novo e, resignada, Isdora saiu debaixo da cabaninha de lençóis e levantou da cama.

- O rei supremo da Cidade de Ouro e Prata, Islamal – O Único convida a rainha Isdora para um jantar de comemoração pela sua ascensão ao trono. Criadas virão aos aposentos preparar vossa majestade para a ocasião. Diga-me, senhora, o que precisa que elas tragam.

Isdora não disse nada, embora a idéia de ter roupas limpas e comer um jantar decente não saísse da sua cabeça. “Então ele quer me comprar...”. Continuou olhando para o conselheiro como se ele fosse um sonho. “Se eu fingir que estou louca, talvez ele vá embora e diga ao seu amo para esquecer essa história de jantar”. Ela sibilou, fez uma careta para o conselheiro, cuspiu nele e se enfiou de novo embaixo dos lençóis.

- O truque de fingir que perdeu o juízo não vai funcionar majestade. A senhora está sendo vigiada e posso garantir que, pelas informações que recebo, a senhora tem mais juízo do que eu. Meu senhor Islamal imaginou que a senhora não iria colaborar, por isso, tomei a liberdade de providenciar um vestido para o evento desta noite, bem como sais de banho, pétalas de rosa para perfumar seus cabelos e criadas para ajudá-la. Elas virão logo depois do almoço.

O emissário fez uma reverência, deu duas leves batidinhas na porta do quarto-prisão da rainha Isdora e, quando uma fresta suficiente apenas para uma pessoa passar se espremendo foi aberta, ele saiu. Ao ouvir o clique da chave trancando a porta por fora, Isdora pulou da cama e se convenceu de que estava na hora de agir. “Preciso fugir daqui e descobrir o que houve com Rajá e Paxá”.


Para acompanhar o começo da história:


I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
A rainha prisioneira - Parte II

domingo, 30 de novembro de 2008

As mil e uma aventuras do Príncipa Rajá

A rainha prisioneira - Parte II

A rainha Isdora matava o tempo no cativeiro cantando. Desde as músicas da sua infância até aquelas que embalavam o sono de Rajá quando era bebê. Ela também marcava risquinhos na parede atrás da cama, um para cada vez em que as cortinas vermelhas filtravam uma luz de pesadelo, cada vez que o sol nascia. Cortinas vermelhas não combinam com o amanhecer, pensava a rainha, o quarto fica eternamente em penumbra e viver na penumbra é muito triste.

A rainha sentia falta de andar ao ar livre. Ela gostava de sair de manhã cedo, passear até o mercado em uma das praças do palácio-cidade. Nessas ocasiões, quando Rajá batia em seus joelhos, ela o ensinava os nomes das frutas. Lembrava com saudade que ele fazia caretas muito engraçadas quando provava uma fruta de sabor mais ácido. “Onde estará você Rajá?”, suspirava a rainha prisioneira.

Os dias no cativeiro são muito lentos, se arrastam amargamente e cada minuto parece levar séculos. Isdora contava as horas através das três refeições que recebia. Não era muita coisa o que seu algoz mandava para ela comer. A ceia era muito magra, dura, ressecada e com gosto de bolor, mas ela comia tudo. Sabia que não podia enfraquecer, porque se ficasse vulnerável, seria presa fácil para Islamal. As sombras projetadas pelas cortinas vermelhas também mudavam de posição de acordo com o avançar do dia e assim, Isdora calculava o seu tempo de prisão.

O mais angustiante era ficar imaginando o que teria acontecido com Rajá e com Paxá. Há dias ela não falava com ninguém. Da última vez que viu outra pessoa no quarto-prisão, tinha feito um risco bem grande na parede e colocado uma letra G, de gente, ao lado do risco. Era uma mocinha miúda, que entrou nos aposentados trazendo uma bacia de água para a rainha tomar banho. A menina entrou de cabeça baixa, colocou a bacia no chão ao lado da cama e saiu. Isdora tentou puxar conversa, perguntar a ela se sabia alguma coisa sobre o paradeiro do marido e do filho, mas a mocinha apenas colocara o dedo sobre os lábios, naquele gesto de pedir silêncio, e saiu do quarto.

Vinte risquinhos depois da visita da menina, Isdora sentia que precisava de outro banho. Era muito incômodo ficar sem lavar os cabelos tanto tempo. Sua pele também coçava muito e no quarto havia pulgas, certamente atraídas pelo cheiro de suor.

“Onde está Islamal? Tem quase dois meses que estou aqui presa e ele ainda não apareceu. O que ele estará fazendo? E o povo da cidade, o que ele disse ao povo para explicar a ausência da família real?”, a rainha pensava, pensava, até a cabeça doer ou ela sentir que estava prestes a ficar louca. “Não Isdora, você tem de agüentar! Nada de ficar delirando”, dizia a si mesma. “Islamal virá e quando ele chegar, estarei esperando e ele vai se arrepender...”

Para acompanhar o começo da história:


I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I

sábado, 8 de novembro de 2008

Retomando o fio da meada...

As mil e uma aventuras do príncipe Rajá

- Quando a história do príncipe Rajá vai terminar?
- Não sei ainda, estou pensando nos rumos da história.
- O minhocão gigante já apareceu?
- E tem minhocão gigante é?
- Tem sim, na história original tinha um minhocão quando ele visitava o reino embaixo da terra.
- Aaahh, é mesmo. Ainda não cheguei nessa parte...
- Quando vai chegar?
- Não tenho a menor idéia, a história é bem grande.
- Mas foi você quem inventou o princípe Rajá, devia saber quando termina!
- Eu inventei, mas agora acho que o príncipe Rajá se inventou sozinho.
- Não pode, ele não existe - pausa para pensar - Existe?
- Existe, na minha imaginação, na sua e na de quem ler o blog.
- Hummm...entendi, então ele está de férias! Só pode ser isso para essa história demorar tanto...

Para quem não lembra de Rajá, eis os links, desde o 1º post.


I- - A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I

domingo, 21 de setembro de 2008

As mil e uma aventuras do príncipe Rajá

A rainha prisioneira (parte I)

A rainha Isdora acordou confusa. Também estava muito tonta e enjoada. Lembrava da última vez que se sentiu enjoada, quase 11 anos atrás, quando descobriu que esperava o príncipe Rajá. Mas dessa vez, o enjôo era diferente, não era por um bom motivo. Junto com o mal-estar, a rainha sentia um aperto no coração. A primeira coisa que notou foi que o rei Paxá não estava ao seu lado e que nem ela estava na cama certa. Em seguida, percebeu que o quarto também não estava certo, faltavam as suas cortinas amarelas, que filtravam a luz do amanhecer e davam uma claridade de sonho ao quarto. Também não ouviu o som de mastigação. O rei não estava comendo pãozinho com geléia e Rajá, com seus sapatinhos de pontas viradas para cima e turbante de pedrinha azul, não segurava para ela uma xícara fumegante de café fraco.

Com dificuldade, a rainha levantou da cama errada e começou a andar, explorando o quarto errado. “Onde é que eu estou”? – pensava, enquanto seus dedos deslizavam pelas cortinas vermelhas, que davam ao aposento uma luz irritante. Sobre uma mesinha, havia uma bandeja com comida. Alguém deixou café-da-manhã para ela, mas o café estava forte demais, o pãozinho não tinha geléia e faltavam também as frutas que ela tanto gostava de comer ao acordar. “Onde eu estou?” – A rainha sentia fome e mesmo não sendo o melhor desjejum que já tinha provado, comeu tudo o que estava na bandeja como se não visse comida há semanas.

Depois de comer, foi até a porta do quarto, mas estava trancada. Tentou a janela, mas percebeu que ficava no alto de uma torre. Olhou para baixo e viu que a cidade aparecia bem pequenina. Os moradores iam e vinham nas tarefas do despertar, tão miúdos quanto formigas. Tentou gritar, chamar por alguém, mas ninguém conseguia ouvi-la daquela distância. Lágrimas quentes escorreram pelo rosto da rainha. Ela sabia onde estava. Sempre foi mais esperta que o marido e sempre desconfiou que isso aconteceria algum dia. “Mas onde será que ele está? O que está tramando? Onde estão meu marido e meu filho?”

Isdora entendeu mais depressa que o seu rei, que não adiantava ficar desesperada, que aquilo era só o começo de um longo período de cativeiro, que talvez até durasse para sempre. Sem que ninguém precisasse contar a ela, compreendeu que era prisioneira na torre do mago Islamal, o meio-irmão de seu marido e conselheiro ambicioso do rei. “Ele estava esperando a chance de nos pegar e conseguiu...” – A rainha não entendia como Islamal havia dominado o reino e se preocupava com o que ele poderia ter feito ao marido e ao filho. Era difícil permanecer tranqüila, sem saber do paradeiro de Rajá e de Paxá. Ela temia que algo de muito ruim tivesse acontecido ao marido, mas sentia que seu filho estava bem. “Longe de mim, bem longe, mas está bem, eu sei que está.”

Não enlouquecer, não perder o controle e nem tentar nenhum ato desesperado, como se jogar da torre nas nuvens, por exemplo. “Você precisa ficar bem Isdora, para descobrir o que está acontecendo...”

A rainha sabia que Islamal, como todas as criaturas perversas, se alimentam do desespero alheio. Ela não daria alimento à maldade de Islamal. Mesmo que se sentisse muito triste, preocupada, deprimida, desesperada, em pânico, como, aliás, ela se sentia, não iria demonstrar nada disso ao mago cruel. “Ele não vai me dominar”.

A rainha da Cidade de Ouro e Prata estava certa de que mais dia, menos dia, Islamal viria até a torre cantar vitória, ela entendia corações frios como o dele e diversas vezes havia dito ao rei para mandar Islamal embora, mas seu marido era um bom homem, tinha o coração puro e nunca desconfiaria do próprio irmão.

Islamal viria, teria prazer em fazê-la sofrer contando os detalhes do seu plano diabólico. A rainha acreditava que havia um plano sinistro por detrás das cortinhas vermelhas que escondiam a janela da torre nas nuvens, da porta trancada e das ausências de Rajá e de seu marido.

“Tudo começou naquela noite em que Rajá nos mostrou números de magia... Se ao menos as lembranças não estivessem tão borradas, tão escondidas por névoas espessas...”


(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; 02 e 09 de agosto).

sábado, 9 de agosto de 2008

As mil e uma aventuras do príncipe Rajá

O rei destronado (final)

A porta de madeira foi aberta com um rangido, o suficiente para que uma mão colocasse a jarra de água e o prato de comida para o prisioneiro. O rei Paxá, recostado na parede cinzenta e coberta de limo, repassava pela milionésima vez os últimos acontecimentos antes de acordar acorrentado em um calabouço que ele acreditava ficar no subsolo do seu próprio palácio. O barulho da porta de madeira sendo arrastada no chão de pedra chamou sua atenção. Ele tentou levantar-se, mas estava muito fraco. Arrastando-se, chegou até a comida e a água.

Mal tinha colocado o primeiro bocado na boca, a porta da cela se abriu e Islamal entrou. Ao ver o irmão, o rei Paxá sentiu-se muito feliz, queria até levantar para dar um abraço no seu conselheiro, mas as correntes pesadas e a fraqueza nas pernas não ajudavam muito. O olhar que Islamal lançou ao rei era tão inexpressivo que Paxá temeu pelo pior. “Será que ele foi enfeitiçado?” Arrastando-se de volta para o canto do calabouço e tentando se apoiar na parede para levantar, o prisioneiro perguntou: “Islamal, meu irmão, o que está acontecendo? Onde estão Rajá e Isdora? O que aconteceu com você? Por que estou aqui preso nesse calabouço? Onde estão os súditos da cidade...”

Islamal ergueu a magra e pálida mão direita, pedindo silêncio ao rei. Ficou estudando a fisionomia transtornada do irmão, a barba por fazer, as roupas sujas e rasgadas, as faces encovadas e as olheiras profundas de quem não come e não dorme direito faz muito tempo. Sentiu-se recompensado, vingado pelos anos em que viveu a sombra de Paxá, como o segundo homem do reino, o vizir, o conselheiro, e não como o governante, como aquele que recebia as homenagens. Enquanto Paxá era aclamado pelos súditos, amado por uma bela rainha e adorado por um filho muito esperto, Islamal tinha de se contentar em assistir toda aquela felicidade. Era demais para alguém como ele, que se julgava o mais inteligente dos homens, o mais poderoso dos magos. Vendo o ex-rei da Cidade de Ouro e Prata reduzido à condição de prisioneiro, beirando a indigência, todos os anos de mudo e silencioso ressentimento deixaram de pesar sobre a sua alma corroída pela inveja.

A vontade de Islamal era contar ao irmão, em detalhes, como o seu plano tinha dado certo. Como havia seduzido o príncipe Rajá com as aulas de magia, como levou o menino a criar uma poção do sono que fez o rei e a rainha dormirem por semanas. Como havia encorajado Rajá a viajar para conhecer a Floresta Sem Fim e aproveitando a ausência do príncipe, trancado o rei naquele calabouço. Queria também dizer ao irmão que finalmente, a rainha Isdora, que sempre o desprezara, era agora sua prisioneira. Que em breve, pretendia casar-se com ela, assim que comunicasse aos súditos, todos reduzidos à escravidão, que o seu bom rei havia morrido. Islamal pretendia ainda atormentar o rei descrevendo as mil e uma formas como Rajá, um menino de onze anos incompletos, poderia ter morrido, sozinho e abandonado, vitima das armadilhas da Floresta Sem Fim. Para finalizar sua cruel narrativa, o vil conselheiro pretendia ainda dizer de que forma iria transformar a Cidade de Ouro e Prata na sede do seu grande reino do mal, espalhando o terror entre todos os povos vizinhos.

Mas ele não disse nada disso. A história que ele contou foi assim:

- Paxá, meu irmão, que bom que você está vivo!! Levei dias procurando-o em todos os calabouços do Palácio de Ouro e Prata. Você não tem idéia do que aconteceu. Uma horda de invasores terríveis dominou a cidade. O príncipe e a rainha foram feitos prisioneiros. Só me deixaram vivo porque eu sou um mago que tem grandes poderes, como você bem sabe. Estou empenhado em descobrir para onde Rajá e Isdora foram levados e assim, ajudar vocês três a fugirem daqui. O líder da horda de invasores já anunciou que vai matar o menino e que pretende desposar a rainha. Ele também pretende deixar você apodrecer aqui para sempre e a cidade está toda arrasada, sem jardins, sem alegria. O povo se esconde com medo dos invasores. Tentarei voltar aqui outra vez para vê-lo e ajudá-lo a reencontrar sua família...

O rei Paxá, apesar das pernas fracas e das correntes pesadas, ergueu-se de um salto e alcançou Islamal quando o mago se aproximou da porta, com a intenção de ir embora.

- Meu irmão, o que está acontecendo? Que história louca é esta? Onde estão minha mulher e meu filho?... – as lágrimas escorriam do rosto do rei, que segurava as roupas do irmão, sacudia-o, implorava uma explicação. Era difícil para Islamal sustentar a farsa, manter seu teatro e fingir que a cidade estava dominada por inimigos desconhecidos. Ver o grande rei Paxá chorando era alegria demais para um só dia. Mas ele se controlou, escondeu a felicidade por trás do mesmo olhar inexpressivo que o ingênuo rei Paxá interpretava como sendo de piedade.

- Paxá, meu irmão e soberano, a quem devo respeito e obediência, também sou prisioneiro dos invasores. Eles me vigiam dia e noite, não posso ficar muito tempo aqui, ou eles vão desconfiar e também me colocarão num calabouço. Se isto acontecer, acabam-se as nossas esperanças de salvar a cidade e principalmente, salvar a sua família. Voltarei assim que puder com mais noticias.

Soltando as vestes das mãos tremulas do rei, Islamal deu uma batida na porta do calabouço, que se abriu para que ele saísse. O rei Paxá, que agora sabia ter se tornado um soberano destronado, ficou de pé, olhando a porta de madeira pela qual sua única esperança de escapar daquele pesadelo tinha acabado de sair.

(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daqueles de 01 e 02 de agosto).

sábado, 2 de agosto de 2008

O rei destronado (continuação)

O rei Paxá começou a gritar, gritou feito um louco durante horas, gritou até perder a voz, ameaçou, chorou, esmurrou a parede cinzenta e cheia de limo, tentou arrancar as correntes, mas isso só serviu para ferir-lhe os tornozelos. Chamou por Rajá, por Isdora, por Islamal, por qualquer pessoa, até ficar esgotado e rouco. Ninguém veio atendê-lo naquele dia e nem no dia seguinte e nem no dia depois do seguinte.

O calabouço era frio, úmido e escuro. Uma janelinha minúscula deixava à mostra um quadradinho de céu suficiente para o rei saber se era dia ou noite, mas ele não sabia em que dia da semana estava, nem em que mês. Não tinha certeza se tinha dormido apenas uma noite antes de acordar na prisão ou se tinha dormido infinitas noites e, de repente, acordado para um pesadelo tão horrível.

Sentia fome e imaginava que, a menos que estivesse sob algum encantamento, não poderia ter dormido semanas ou meses, senão teria morrido de fome e sede. No entanto, sentia-se fraco e seus pensamentos eram os mais desencontrados e confusos. “A cidade foi invadida? Mataram minha família? Mataram todos e me deixaram aqui para morrer nesse porão? Mas quem invadiria a minha cidade? Não tenho inimigos!!”

Quanto mais pensava que alguma coisa terrível tinha acontecido com a esposa, o filho e os súditos, mais desesperado ficava o rei. Sua esperança era encontrar Islamal, mas em seus delírios imaginava que o irmão estava morto. Quando esse medo tão grande de ter perdido toda a família vinha, geralmente quando ficava muito escuro e não dava mais para ver o quadradinho de céu na janelinha do calabouço, o rei Paxá abraçava os joelhos e chorava.

Lamentava-se e também brigava consigo mesmo por nunca ter feito amizade com os reinos vizinhos. Se ele não tinha inimigos por viver isolado no seu palácio-cidade dourado, também não tinha amigos pelo mesmo motivo. Nessa hora de dificuldade, nenhum vizinho viria ajudar porque a Cidade de Ouro e Prata ficava longe demais de qualquer outro reino. Sem amigos, além da própria família e dos súditos, que ele julgava mortos, ninguém sentiria a falta do rei e por isso, não tentariam resgatá-lo. Ele estava condenado a viver no calabouço para sempre ou morrer de fome em mais alguns dias.


(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daquele de 01 de agosto).

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

XI – O rei destronado (parte 1)

O rei Paxá acordou com dor de cabeça. Também estava muito tonto e enjoado. Ele não se lembrava na última vez que sentiu dor de cabeça. Aliás, lembrava sim, nunca teve uma gripe, resfriado, dor de barriga, calos, chulé, piolho e muito menos enjôo. Apesar de sentir-se doente, coisa que ele tinha certeza que nunca tinha ficado na vida, o que chamou a atenção do rei naquela manhã não era o seu súbito e esquisito mal-estar. Também não notou que a rainha Isdora não estava ao seu lado, como deveria estar e esteve ao longo dos últimos 15 anos. Naquele momento, o rei não sentiu falta da sua rainha. O que estava muito errado, muito fora de ordem, era a falta de pãozinho de mel com geléia e de um menino de turbante com pedrinhas azuis e sapatinhos com as pontas viradas para cima, sorrindo e desejando bom dia. “Onde está o meu filho?”

Enjoado, sem filho, sem esposa – finalmente ele percebeu que a rainha Isdora também tinha sumido -, o rei Paxá notou que estava sem quarto. Depois de piscar algumas vezes, de sacudir a cabeça, coçar os olhos e respirar fundo contando até dez, ele finalmente percebeu que havia alguma coisa errada, misteriosa e sinistra acontecendo. ”Onde está o meu filho? Cadê a minha esposa? Onde eu estou?”

Sem saber por onde começar a procurar, sem saber o que pensar, o rei quase entrou em desespero, mas de repente lembrou-se do seu sábio conselheiro, e meio-irmão, Islamal. “ Islamal vai saber o que aconteceu, onde estão minha mulher e meu filho, porque eu estou aqui nesse calabouço e porque não me trouxeram café da manhã ainda. Tudo o que eu preciso fazer é me levantar desse chão duro, ir até aquela porta de madeira ali e chamar o meu conselheiro...”

Não foi tão fácil. A primeira dificuldade encontrada pelo rei, além da barriga roncando sem o desjejum, foi que ele descobriu que estava amarrado. Pior, estava acorrentado pelos tornozelos a uma parede de pedra cinzenta e manchada de limo. A outra dificuldade é que o lugar da sua prisão parecia deserto, inóspito, sem uma alma viva a quem pedir socorro, nem moscas zumbiam na cela. “Que tipo de brincadeira é essa?” – pensava o rei, embora lá no fundo soubesse que não era brincadeira nenhuma. Ele estava em apuros e se o rei estava em apuros tão sérios, isso significava que a rainha e o príncipe também corriam perigo. Significava ainda mais, a sua Cidade de Ouro e Prata, cheia de beleza e de paz, estava ameaçada.


(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; além daqueles de 09 e 24 de julho).

quinta-feira, 24 de julho de 2008

X - A feiticeira da lua crescente

O perfume dela sempre o acalmava. Quando ela entrava no quarto, no meio da noite, todos os espíritos assombrados fugiam. Dormir naquele colo que cheirava a sândalo e alfazema afugentava os pesadelos.

Rajá sonhava com a mãe e podia sentir a sua presença. Era muito bom estar de volta entre as almofadas macias e perfumadas do seu quarto, onde a rainha Isdora brincava com ele. Desde pequeno, o menino gostava de cochilar nas almofadas, ouvindo a voz da mãe cantar músicas muito antigas ou contar histórias que ela aprendia com os idosos sábios da Cidade de Ouro e Prata.

Era muito bom estar em casa depois de uma jornada estafante pela Floresta Sem Fim. Rajá queria se explicar, pedir desculpas por ter hipnotizado os pais, por ter colocado a poção do sono de Islamal no suco do rei e no café da rainha, queria dizer-lhes que estavam certos, que o mundo era grande e perigoso demais para ele, um menino de menos de 11 anos, enfrentar sozinho.

O príncipe estava cansado e a música, a voz da rainha era tão doce, que ele não conseguia explicar nada, não pensava direito, só sentia muito sono. Depois de noites inteiras ao relento, finalmente o menino dormia em um quarto aquecido. “Durma Rajá” – dizia a voz de sua mãe. Irresistível não atender ao apelo daquela voz.

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O príncipe Rajá dormiu cinco dias seguidos. Quando acordou, sentiu falta do peso da jibóia Hamida sobre a barriga. Percebeu que não estava na sua cama, nas almofadas macias, mas em uma cama, em um quarto, completamente diferente dos quartos do palácio onde morava. A mulher que olhava para ele era jovem, mais jovem que sua mãe. Ela era mais alta que Isdora e se vestia com um manto verde, salpicado de girassóis, estrelas, luas, tudo entrelaçado, formando desenhos estranhos. Tinha olhos verdes e os cabelos muito vermelhos, desciam soltos pelas costas.

“Você é a feiticeira da lua crescente?” – perguntou o menino.
“Meu nome é Ishstar, mas me chamam de feiticeira da lua crescente”

Aquela era a moça mais bonita que Rajá tinha visto em toda a sua curta vida e a primeira vez que ele via e falava com alguém que vivia fora da Cidade de Ouro e Prata, alguém que conhecia o mundo. Tinha centenas de perguntas para fazer à feiticeira, queria aprender com ela os segredos dos animais e plantas mágicas da Floresta Sem Fim, precisava saber também se era verdade que a feiticeira preparava uma poção que podia transformar qualquer coisa em comida. Como se pudesse ler a mente do menino, a feiticeira disse:

“Você terá todas as respostas que procura e vou ensiná-lo tudo o que quiser aprender. Seu esforço em me encontrar vale a pena ser recompensado com toda a minha sabedoria. Você será o meu primeiro aprendiz em muitos anos Rajá e espero que use com justiça tudo o que eu ensinar.”

Rajá mal acreditava que iria ser aceito como aprendiz da lendária Ishstar. Não via a hora de começar as lições. Antes, porém, precisava comer, estava com muita fome depois de ter dormido cinco dias seguidos. Outra coisa preocupava o menino, além da barriga roncando: Onde estava Hamida? Sua jibóia, que sempre o acordava de manhã, tinha sumido.


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quarta-feira, 9 de julho de 2008

IX - A língua universal


O príncipe Rajá cansou de ver árvores, pedras, rios, riachos, córregos, insetos, mais pedras, mais árvores e nenhuma feiticeira. O menino havia perdido a conta dos dias em que andava pela Floresta Sem Fim com a jibóia Hamida sobre o ombro, procurando a Feiticeira da Lua Crescente. Sorte que ele agora entendia a língua da cobra. Do contrário, a solidão e o silêncio já o teriam feito desistir da viagem. Todas as pedras azuis do seu turbante haviam sido trocadas por água ou por animais que caçava para comer. Em breve, se não encontrasse a feiticeira, teria de trocar as pedrinhas que enfeitavam a faixa real presa à sua cintura.

Durante a jornada, Hamida contou para Rajá que todas as crianças nascem com a capacidade de entender a língua dos animais e das plantas. Elas também sabem falar com pedras, com a água dos rios, com a chuva e com a terra. Quando crescem, esquecem essa língua e os poucos que se recordam do idioma universal que une todas as criaturas, são considerados mágicos ou loucos. Na verdade, continuava Hamida, magos e feiticeiras são apenas adultos que cresceram por fora, mas continuaram crianças por dentro. Todas as crianças, dizia a jibóia, podem fazer magia, pelo simples fato de que as crianças acreditam que tudo é possível.

Rajá pensava nas lições de Hamida e sentia um aperto no coração. “Se tivesse me lembrado da língua universal antes, não precisaria aprender hipnotismo com tio Islamal e nem teria feito aquela poção tão forte, que deixou meus pais desacordados”. A culpa crescia dentro do menino como erva daninha. Embora uma parte do seu coração quisesse continuar acreditando em Islamal, uma outra, cada vez maior, dizia que o jovem príncipe tinha feito uma coisa muito errada confiando seu reino e seus pais adormecidos ao tio.

Muitas vezes ele pensou em desistir, muitas outras vezes mudou de idéia e resolveu que continuar era necessário. Um pressentimento de que a Cidade de Ouro e Prata corria perigo rondava os pensamentos de Rajá. A certeza de que, quanto mais ele aprendesse sobre o mundo, mais fácil seria livrar seu palácio desse terrível perigo, o fazia continuar na busca pela feiticeira.

Cansado depois de mais um longo dia de caminhada, com fome e de mau-humor, o menino tirou a cobra do ombro e sentou-se sob uma árvore. Na sua sacola havia um último pedaço da carne assada que sobrou da caçada do dia anterior. Rajá dividiu a carne em dois pedaços, um para ele e um para Hamida. A jibóia preferia carne fresca, mas como para cada bichinho que engolisse, seu dono teria de deixar uma pedrinha preciosa em troca, a cobra se contentava em comer pedaços da caça preparada por Rajá.

Os pés do príncipe estavam cheios de bolhas e cada vez que ele andava com seus sapatos de pontinhas viradas para cima, as bolhas estouravam e novas bolhas nasciam por cima da pele esfolada. O destemido Rajá, com o turbante sem pedrinhas, os pés mal-tratados e a barriga roncando de fome queria muito estar deitado em almofadas macias, com um braseiro quentinho sob um cobertor que lhe cobriria as pernas.

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sábado, 28 de junho de 2008

E a saga do príncipe Rajá continua...


Entre pausas e tentativas de versejar, a história do príncipe Rajá vai sendo escrita. Linha a linha, palavra a palavra, aventura a aventura. Para quem nunca ouviu falar desse menino de 11 anos incompletos que viaja na companhia de uma jibóia de estimação, por terras só imaginadas, eis um pequeno resumo, antes de começar um novo capítulo:

O príncipe Rajá nasceu na riquíssima Cidade de Ouro e Prata, um gigantesco palácio que fica na fronteira de terras misteriosas e que por ter tantos quartos, alas e jardins, é conhecido em toda a região como Cidade de Ouro e Prata. Os habitantes desse lugar encantado têm medo de sair do seu aconchego e conhecer o mundo do lado de fora das muralhas. O rei Paxá, pai do príncipe Rajá, acredita que dentro das suas paredes douradas está a salvo dos perigos e perfídias do mundo. Ele não sabe que o maior perigo está justamente dentro do palácio, atende pelo nome de Islamal e é o tio de Rajá e seu conselheiro. Um dia, o príncipe Rajá, sem desconfiar das tramas do tio, aprende lições de hipnotismo, hipnotiza os pais e foge do palácio para viver as grandes aventuras de seus sonhos...


(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; além daquele de 01 de junho).

domingo, 1 de junho de 2008

VIII - A Floresta Sem Fim

A Cidade de Ouro e Prata ficava numa clareira muito iluminada, no último pedaço de terra antes da Floresta do Sem Fim. A floresta era enorme e demorava-se mais de dois meses para percorrê-la inteira de norte a sul, de leste a oeste, daí o seu nome Floresta do Sem Fim. Poucos se aventuravam a explorar a vastidão, pois era muito fácil se perder e nunca mais achar o rumo de casa. A diferença para os jardins da Cidade de Ouro e Prata é que estes, apesar de imensos, confundiam os viajantes por sua beleza, os aromas e os animais encantadores. Já a Floresta do Sem Fim era um lugar estranho, sua beleza era assustadora e os animais, mais selvagens e traiçoeiros. As árvores falavam uma língua antiga e costumavam mudar de lugar, para que quem entrasse na mata, nunca conseguisse usá-las para marcar o caminho de volta.

O príncipe Rajá estava cansado de tanto andar. Em seu ombro, Hamida parecia dormir profundamente. O menino sentia todo o peso da jibóia de estimação. Ainda havia comida e água na sua sacola, mas ele temia não conseguir atravessar toda a Floresta do Sem Fim. Também se perguntava onde conseguiria encontrar a feiticeira. “Ela deve morar em algum lugar muito escondido e essas árvores e animais com certeza protegem a sua casa de visitas indesejadas”.

Sem forças para continuar e percebendo que a noite estava próxima, Rajá decidiu encontrar um abrigo para esperar o próximo nascer do sol, quando então continuaria a busca pela feiticeira. Encontrou uma clareira próxima de um rio. Deixou Hamida e a sacola próximas de uma pedra e levou seu odre para encher de água. Ao se aproximar da água, porém, ouviu uma advertência:

- Não se tira nada da Floresta do Sem Fim sem dar um presente em troca!

O menino ficou assustado e se afastou do rio, procurando a voz. Olhou em todas as direções e não viu ninguém, só a cobra Hamida parecia ainda dormir profundamente. Acreditando que a voz vinha de dentro da sua cabeça e era fruto do cansaço, Rajá voltou à beira do rio para encher o odre.

- Rapazinho teimoso, essa é a última advertência: não se tira nada da Floresta do Sem Fim sem dar um presente em troca!!

Rajá correu assustado para perto de Hamida e para sua surpresa, seu animal de estimação, que antes parecia tão molenga e preguiçoso estava bem desperto. Ele se aproximou da cobra e já ia esticando a mão para recolocá-la no ombro quando ouviu de novo a voz que, parecia sair de dentro da jibóia!

- Rajá, você não entendeu o que eu disse? Para retirar a água do rio, que vai matar a nossa sede durante o resto da jornada, você precisa dar alguma coisa em troca para os seres mágicos que vivem na floresta!!

O menino mal podia acreditar no que seus ouvidos ouviam e no que seus olhos viam. Hamida, a jibóia que ele criava desde que saiu do ovo, sempre languidamente enrolada em sua cintura ou pendendo do ombro como se fosse uma faixa de tecido da roupa do príncipe, era capaz de falar!

- Hamida, como é que você fala?

- Ora Rajá, como todos os animais! Você nunca ouviu as conversas deles nos bosques da Cidade de Ouro e Prata? Claro que ouviu! Você conversava tanto com todos nós quando era menorzinho, mas à medida que foi crescendo, esqueceu a nossa língua e agora, nem lembra mais que somos capazes de falar. Mais um tempo e quando estiver da idade do seu pai vai duvidar até que pensamos.

- Mas porque você não falou comigo esse tempo todo?

- Eu falei sim, você que não entendeu nada. Acho que a floresta tem algum poder capaz de despertar em você o conhecimento adormecido da língua dos bichos, que você sabia falar por instinto quando era menorzinho.

Rajá decidiu que naquele momento, não valia a pena questionar Hamida sobre como ele aprendeu uma língua dos bichos que nem lembrava que sabia falar. O menino, apesar de tão novo e curioso para descobrir aventuras, tinha senso prático. O importante era encher o odre, encontrar um canto seguro para dormir, recuperar as forças comendo dois pães de mel roubados de uma das cozinhas do palácio dourado e pensar no próximo passo para localizar a famosa feiticeira.

Em troca pela água do rio, Rajá deixou uma das pedrinhas azuis do seu turbante. Depois, enrolou-se em uma manta e deitou no chão duro, sob as estrelas. Enquanto dormia, os olhos vigilantes da jibóia velavam seu sono.

(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; além daqueles de 01, 03, 18 e 21 de maio).

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Carta do príncipe Rajá aos pais

“Queridos papai e mamãe,

Não se preocupem comigo. Deixo a Cidade de Ouro e Prata só por alguns dias, para conhecer o mundo aqui fora e para aprender sobre seus perigos e ciladas. Como vocês dois esperam que eu seja um bom e justo rei, se tudo o que eu vejo ao meu redor é beleza e bondade? Como vou saber identificar alguém cruel se eu não conheço ninguém para comparar?

Sei que vocês dois me amam muito e se preocupam com a minha segurança, mas eu prometo que nada de ruim vai me acontecer. Trouxe a jibóia Hamida comigo. Ela é dorminhoca, mas também é muito forte. Tio Islamal me ensinou alguns truques de hipnotismo e outras magias muito úteis em caso de perigo. Infelizmente, vocês não viram o quanto eu aprendi, porque a poção do sono que tio Islamal me ensinou a fazer ficou forte demais e ele disse que vocês só devem acordar daqui há duas semanas.

Não fiquem zangados porque eu saí antes de vocês acordarem. Não estou saindo escondido, se estivesse, não deixava essa carta. E além disso, tio Islamal prometeu que vai explicar tudo para vocês. Sinto-me culpado em ter achado que ele era uma pessoa ruim. Os dias que passei com ele foram muito instrutivos e ele não fez nenhuma maldade. Acho que as pessoas têm medo dele porque é meio tímido.

Pretendo começar minha viagem indo até a casa da feiticeira da floresta do sem fim. Já ouvi falar muito das maravilhas que ela é capaz de fazer e soube até que tem uma poção poderosa que cura qualquer ferimento e transforma pedra em comida, qualquer comida que a pessoa quiser comer. Uma poção assim deve ser útil na nossa cidade, embora nunca tenhamos enfrentado guerras ou fome.

Vou aprender tudo o que puder nessa viagem e trazer todas as lições novas para ensinar aos moradores da nossa cidade-palácio. Quando vocês virem as coisas boas que pretendo trazer vão ficar menos aborrecidos com a minha fuga. Se bem que não é uma fuga, é só uma escapada rapidinha e em duas semanas, quando vocês acordarem, vou levar o café da manhã e terei muitas histórias para contar.

Com amor,

do seu filho Rajá".


(Para conhecer a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril de 2008; além daqueles de 01, 03 e 18 de maio últimos).

domingo, 18 de maio de 2008

VII – Aprendiz de hipnotizador

Rajá estava sentado na sua pedra favorita. Era uma pedra redonda e lisa, meio rosada e que ficava às margens de um dos lagos da Cidade de Ouro e Prata. Jogava migalhas de pão para os peixes. Estava tão distraído que nem percebeu a chegada do tio Islamal. Sorrateiro como uma serpente pronta para dar o bote, o mago se aproximou do menino:

- Que lindo dia não é Rajá? Imagino como deve estar encantador lá fora, já pensou em pedir aos seus pais autorização para dar um passeio?

- Eles não deixam. – suspirou Rajá.

- Ora que bobagem, posso falar com eles se você quiser...

- Você faria isso!? – perguntou espantado, mas logo depois lembrou que o tio Islamal nunca havia demonstrado afeto ou interesse pelos seus problemas. Com as sobrancelhas erguidas e um ar desconfiado, Rajá perguntou: – Porque você quer me ajudar?

Islamal escondeu a contrariedade de perceber que Rajá ainda estava em alerta contra ele sob uma máscara de puro arrependimento fingido: - Pensei que essa seria uma boa forma de fazermos as pazes. Bem, você é meu único sobrinho e nós dois nunca fomos grandes amigos, mas ainda dá tempo. Eu não tenho filhos e isso é muito triste na minha idade. Não tenho ninguém para quem ensinar as minhas artes mágicas...

Alguma coisa dentro de Rajá o alertou para o perigo de confiar em Islamal, mas uma outra coisa também se ouriçou toda ao ouvir a expressão “artes mágicas”. O menino era fascinado por magia e secretamente até já tentara realizar alguns truques, mas nenhum tinha dado certo. E se o tio Islamal fosse o seu professor? E se ele fosse só uma pessoa tímida e esquisita? Ninguém nunca tinha visto Islamal fazer alguma maldade, embora todo mundo na Cidade de Ouro e Prata jurasse que ele não era confiável.

Islamal olhava para Rajá tentando adivinhar no que o garoto pensava. Também se esforçava para manter o sorriso fingido e amigável que tinha estampado na cara. Suas bochechas começavam a doer. Não estava acostumado a sorrir e ser bonzinho era muito cansativo.”Vamos pirralho, diga logo que aceita ser meu aprendiz, diga, diga...”

- Tio Islamal, você pode fazer tudo o que quiser usando magia?

- Posso sim. Veja isto... – E ele transformou a pedra onde Rajá estava sentado numa confortável almofada.

- E o que mais você sabe fazer? - perguntou o menino, ansioso.

- Muitas coisas... quer que eu te mostre?

Rajá deu a mão ao tio mago e os dois saíram caminhando em direção ao laboratório secreto de Islamal. O menino acreditava que iria aprender muitos truques divertidos para mostrar aos pais e também estava confiante que, se o tio Islamal, conselheiro em quem seu pai depositava tanta fé, pedisse autorização a Paxá, com certeza o rei permitiria que ele explorasse o mundo além da Cidade de Ouro e Prata. Islamal, por sua vez, comemorava o sucesso da primeira parte do seu plano pérfido.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

De volta ao príncipe Rajá

- Cadê o resto da história do príncipe Rajá? Já acabou?

- Náo, ainda está no começo. Ele nem iniciou sua grande viagem para fora da cidade de ouro e prata. Ainda vai viver mil e uma aventuras.

- Mas tá demorando demais pra contar o resto...Assim vou esquecer tudo.

- Então, para você não esquecer, vou fazer um resumo:

Era uma vez um menino de dez anos chamado Rajá, que morava na Cidade de Ouro e Prata, que não era bem uma cidade, mas um palácio com tantos quartos, salas e jardins, que todos que moravam nele o chamavam de Cidade de Ouro e Prata. O príncipe Rajá era filho do atlético e ingênuo rei Paxá e da bela e amendrontada rainha Isdora. Ele tinha um tio chamado Islamal, que era meio-irmão de seu pai, o conselheiro do rei e um sujeito muito invejoso e malvado. Rajá nunca tinha visto o mundo fora das muralhas douradas, nem seus pais tinham visto nada do mundo e nem a maioria dos moradores da cidade. Só alguns estrangeiros, que tinham ido morar no grande palácio, é que trouxeram notícias terríveis da vida lá fora. Apesar do medo dos pais e da sua pouca idade, Rajá queria viver aventuras longe de casa e planejava fugir. Para isso, ele pensou até em hipnotizar os pais, mas esse pensamento foi só uma tentação que ele logo tratou de esquecer. Mas o seu tio Islamal, que queria tomar o poder do rei Paxá, tinha um plano sinistro...

(Para saber mais detalhes, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril de 2008; além daqueles de 01 e 03 de maio últimos.)

A partir de amanhã, novos capítulos das Mil e Uma Aventuras do Príncipe Rajá.

sábado, 3 de maio de 2008

VI – O plano de Islamal

O problema dos pensamentos, principalmente dos pensamentos que não são muito bons, é que quando eles são pensados perto de um mago malvado, podem se tornar realidade. Islamal era muito malvado e o pensamento de Rajá sobre hipnotizar o rei Paxá e a rainha Isdora não era o que se pode chamar de bom pensamento.

Foi só uma tentação pequenininha, um fiapo de idéia que passou pela cabeça do menino, quando seus pais negaram a ele permissão para sair da Cidade de Ouro e Prata. Rajá não queria fazer mal aos seus pais. Ele gostava muito dos dois. Hipnotizá-los era uma medida desesperada e que ele não se atrevia a tentar. Mas para seu tio Islamal, aquele pensamento era tudo do que ele precisava para colocar seu maléfico plano em ação.

Islamal arquitetou um plano perfeito e até desistiu de transformar o príncipe Rajá em mosca de jardim. Se tudo saísse como ele imaginava, ele nem precisaria fazer nada contra o sobrinho. Era só abrir a porta da gaiola dourada e deixar o passarinho escapulir. “Os perigos do mundo lá fora vão se encarregar de me livrar de Rajá. Ele não passará das Florestas do Sem Fim”.

Um sorriso de triunfo deixou os amarelados dentes de Islamal à mostra. Tudo o que ele precisava fazer, pensou, era encorajar Rajá no seu sonho de conhecer outras terras e convencer o menino a usar as mágicas artes do hipnotismo para garantir o seu passe para a liberdade. Ao conceber suas maldades, Islamal gargalhou alto uma gargalhada muito vilanesca e saiu da ala do palácio onde ele morava e fazia suas terríveis experiências mágicas. Ele nunca teve aprendiz, para evitar concorrência. “Mas sempre há uma primeira vez”.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

V – O pedido de Rajá

O príncipe Rajá acordou os pais com uma cesta de frutas e pães doces, suco, chá forte para o rei e café fraco para a rainha. Enquanto assistia aos dois tomarem a primeira refeição do dia, um nó apertava o estômago do menino. Ele nem conseguiu tomar o próprio café-da- manhã, de tanta ansiedade. O bolo de mel parecia palha em sua boca e o suco de damasco o fazia engasgar.

O príncipe Rajá não estava hipnotizado por seu tio Islamal, mas não conseguia se concentrar em mais nada desde que decidiu fazer o pedido aos pais. Ele estava visivelmente nervoso, embora a rainha Isdora não enxergasse muito bem quando acordava e o rei Paxá não prestasse muita atenção em nada além do pãozinho de mel com geléia à sua frente.

Rajá não sabia como pedir o que tinha ido pedir, mas também não queria sair do quarto dos pais sem receber uma resposta para o seu pedido, que ele esperava que fosse sim. Pais em geral não são propensos em atender pedidos. Principalmente, quando acreditam que isso pode representar perigo para seus filhos. E os filhos, quando precisam embrulhar o pedido em cesta de frutas e pãezinhos, com certeza pretendem pedir alguma coisa que os pais consideram perigosa.

O príncipe Rajá pigarreou. Ensaiou começar uma frase, desistiu e pigarreou de novo. A rainha Isdora largou o copo de suco e perguntou:

- Quer nos dizer alguma coisa meu querido?

Rajá olhava para as pontas viradas para cima dos seus sapatos. Respirou fundo e falou tudo de uma vez, sem pausas para respirar:

- Quero permissão para viajar pelas terras além da Cidade de Ouro e Prata!

O rei Paxá, que parecia não estar ouvindo a conversa e se fartava com as guloseimas. Largou um pedaço de pãozinho mordido no prato e olhou para Rajá assombrado:

- Você quer sair da segurança da nossa cidade-palácio? Mas que absurdo é esse!?

Rajá tinha reunido coragem e não pretendia desistir justo agora que tinha começado a enfrentar os medos dos pais.

- Por favor, me deixem ir lá fora ver como é o mundo. Não posso ficar aqui dentro a vida toda, esperando crescer para um dia governar a Cidade de Ouro e Prata.

- Como não! Foi isso que aconteceu comigo, com seu avô e com o pai e o avô dele. Você vai ficar aqui mesmo, tem bastante espaço nos nossos jardins. – disse o rei Paxá, categórico.

- Meu querido, para quê você quer se aventurar nesse mundo tão perigoso. Você não ouviu os nossos homens sábios? Eles dizem que o mundo é muito feio e muito cruel. – A rainha Isdora torcia as mãos, nervosa.

- Eu preciso ir ver como é esse mundo, mesmo que seja perigoso e não seja tão bonito quanto a nossa cidade, mas eu tenho de ir. Vocês não entendem? Nunca ficaram curiosos em ver como é lá fora?

- É lógico que não!!! – responderam o rei e a rainha. – Lá fora não tem nada que me interesse – completou o rei Paxá. – Aqui dentro sou muito feliz – arrematou a rainha Isdora.

Rajá pretendia dizer muitas outras coisas, mas diante do olhar de reprovação dos pais desistiu de continuar a discussão. Ele iria esperar outra oportunidade para refazer o pedido e seria tão convincente que os dois iriam deixá-lo sair. Embora não gostasse nem um pouco do tio Islamal, Rajá desejou por um segundo ter os poderes de hipnotizador dele. “Se eu hipnotizasse os dois, poderia sair e eles não iam nem perceber”.

sábado, 26 de abril de 2008

IV – O sinistro mago Islamal

A inveja corroia o coração de Islamal. Ele invejava o rei Paxá, porque era casado com a bela rainha Isdora; invejava a rainha Isdora, porque ela era mãe do esperto príncipe Rajá; inveja o príncipe Rajá, porque ele era jovem; invejava os moradores da Cidade de Ouro e Prata, porque eram todos felizes. Islamal era a inveja em pessoa. Ele vivia para invejar e só a inveja e o desejo de ter as coisas dos outros o mantinha vivo.

O mago Islamal, meio-irmão e conselheiro do rei, era uma criatura pérfida e sinistra. Não era atlético e tinha inveja da boa forma de Paxá. Sua palidez, o corpo muito magro e os olhos malévolos metiam medo nas crianças e nos adultos também. Homens e mulheres evitavam cruzar o seu caminho.

No coração de Islamal cabiam apenas dois desejos: destruir o rei Paxá e desposar a rainha Isdora. O mago dominava segredos da hipnose e transformação de pessoas em insetos. Arquitetava muitos planos, cada um mais malévolo que o outro.

O príncipe Rajá não gostava do tio, a rainha Isdora temia o terrível mago e o rei Paxá confiava ingenuamente no seu conselheiro. Islamal planejava transformar Rajá em uma insignificante mosquinha, matar o rei Paxá e hipnotizar a rainha Isdora.

Islamal também queria abrir as portas do reino, mas com a intenção de permitir que a maldade invadisse a cidade. Ele tramava subjugar os habitantes de todos os reinos vizinhos e se tornar soberano da Cidade de Ouro e Prata e de todo o mundo. Queria ser mais poderoso e maior do que o rei Paxá.

Irmão mais novo, por parte de pai, Islamal foi criado em um dos inúmeros quartos do palácio-cidade. Sua mãe não era a esposa principal do velho rei Hamir e por isso, Islamal não podia sonhar com o trono. O rei Paxá, quando assumiu o comando, após a morte de seu pai, acabou com o costume muito antigo dos soberanos da Cidade de Ouro e Prata de terem mais de uma esposa. Além de dar muito trabalho e criar uma grande confusão, provocava brigas terríveis por herança e o rei Paxá queria que o seu mundo fosse um refúgio de paz.

Islamal, secretamente, planejava levar a guerra para dentro dos jardins encantados. Guerra e morte se escondiam na alma do mago, sorrateiras e prontas para destruir o paraíso.