segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Construção de mais uma maria dentre tantas
Leia também:
>>Ensaio para um conto futuro
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Morpheu e os anjos entram em acordo
- Con licença, majestades - disse o anjo porteiro. - Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.
Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:
- O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia... então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom...
Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:
- ...a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele "dormiria com os anjos" (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho...
Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, de vez em quando, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino. O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor para ideias incrivelmente simples e completamente geniais do Arcanjo.
O começo da noite sem sono:
>>I - O menino que não gostava de dormir
>>II - Uma audiência com Morpheu
>>III - Diálogo do sono e do menino insone
>>IV - Uma viagem ao reino dos anjos
>>V - Uma audiência com o rei dos anjos
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Uma audiência com o rei dos anjos
- Você veio me visitar para falar de um menino que não gosta de dormir?
- É isso aí, respondeu Morpheu displicentemente - eu não gosto muito de sair de casa, ainda mais com esse trânsito hoje em dia. As estradas para o céu estão muito esburacadas sabia? Você devia mandar arrumar...
Um pigarrinho do Arcanjo fez o rei do sono parar de enrolar:
- O negócio é o seguinte colega, - os dois eram reis, Morpheu achou que podia chamar o Arcanjo de colega, mas o outro não gostou muito da intimidade - tem um menino na terra que não dorme porque os seus anjos ficam lá puxando conversa com ele e se ele não dorme, significa que eu não consigo fazer meu trabalho direito, que é botar o menino para sonhar. Então, eu vim aqui para você resolver a situação.
O Arcanjo arqueou uma sobrancelha:
- Caro senhor Morpheu, eu não posso me meter nas atividades que os anjos executam nos seus momentos de folga. Eles são livres para ir aonde quiserem e falar com quem bem entenderem.
Morpheu não estava gostando nadinha daquele rei dos anjos. Além de péssimo anfitrião, ainda era malcriado!
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
>>Uma viagem ao reino dos anjos
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Uma viagem ao reino dos anjos
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Diálogo do sono e do menino insone
- Por que você não gosta de dormir, menino?
- E por que você só fica acordado?
- Eu perguntei primeiro!
- Mas eu sou mais novo e mais curioso. Além disso, sou a visita. Diz a etiqueta que o anfitrião precisa ter a visita em altíssima conta.
- E de onde a minha visita tirou um vocabulário tão erudito?
- Dos livros ora essa! E das conversas com os anjos.
- Então você conversa com anjos?
- Só de madrugada, quando o expediente no céu termina e eles não tem nada para fazer lá no alto, daí descem e ficam batendo papo com as crianças.
- E se você dormir eles não puxam conversa?
- Claro que não! O senhor por acaso já tentou falar dormindo?
- Eu não durmo.
- Pois devia. Meu pai diz que dormir faz ficar inteligente e minha mãe diz que dormir faz ficar forte.
- E por que você não dorme? Eu, por exemplo, gostaria, mas não posso dormir. Não tem ninguém para cuidar do palácio se eu dormir e nem para cuidar dos sonhos das pessoas e afastar os pesadelos.
O menino abriu um sorriso insinuante de orelha à orelha. O rei Morpheu sabia que estava encrencado e teria de pedir audiência com o rei dos anjos...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Ensaio para um conto futuro
sábado, 27 de dezembro de 2008
Um suspiro...
e viver em eterno estado de poesia...
ai meu deus, quem me dera!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O menino dos dinossauros
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham os versos. Procurou, perguntou, leu... Do poeta, disse a avó. De um louco alquimista de palavras, disse a tia. Da sua alma, suspirou a mãe. Nada disso, vêm de uma caixa escondida no armário, que fica longe, depois daquela curva, mais para lá no vento, no quarto do palácio do rei do sonhar.
O menino dos dinossauros queria saber de onde vinham as histórias. Procurou, perguntou, escreveu... Do livro, disse a avó. Da ponta da varinha da bruxa, disse a tia delirante. Da sua alma, encantou-se a mãe. Nada disso, as histórias não vêm de lugar nenhum, estão em toda parte.
domingo, 30 de novembro de 2008
As mil e uma aventuras do Príncipa Rajá
A rainha Isdora matava o tempo no cativeiro cantando. Desde as músicas da sua infância até aquelas que embalavam o sono de Rajá quando era bebê. Ela também marcava risquinhos na parede atrás da cama, um para cada vez em que as cortinas vermelhas filtravam uma luz de pesadelo, cada vez que o sol nascia. Cortinas vermelhas não combinam com o amanhecer, pensava a rainha, o quarto fica eternamente em penumbra e viver na penumbra é muito triste.
A rainha sentia falta de andar ao ar livre. Ela gostava de sair de manhã cedo, passear até o mercado em uma das praças do palácio-cidade. Nessas ocasiões, quando Rajá batia em seus joelhos, ela o ensinava os nomes das frutas. Lembrava com saudade que ele fazia caretas muito engraçadas quando provava uma fruta de sabor mais ácido. “Onde estará você Rajá?”, suspirava a rainha prisioneira.
Os dias no cativeiro são muito lentos, se arrastam amargamente e cada minuto parece levar séculos. Isdora contava as horas através das três refeições que recebia. Não era muita coisa o que seu algoz mandava para ela comer. A ceia era muito magra, dura, ressecada e com gosto de bolor, mas ela comia tudo. Sabia que não podia enfraquecer, porque se ficasse vulnerável, seria presa fácil para Islamal. As sombras projetadas pelas cortinas vermelhas também mudavam de posição de acordo com o avançar do dia e assim, Isdora calculava o seu tempo de prisão.
O mais angustiante era ficar imaginando o que teria acontecido com Rajá e com Paxá. Há dias ela não falava com ninguém. Da última vez que viu outra pessoa no quarto-prisão, tinha feito um risco bem grande na parede e colocado uma letra G, de gente, ao lado do risco. Era uma mocinha miúda, que entrou nos aposentados trazendo uma bacia de água para a rainha tomar banho. A menina entrou de cabeça baixa, colocou a bacia no chão ao lado da cama e saiu. Isdora tentou puxar conversa, perguntar a ela se sabia alguma coisa sobre o paradeiro do marido e do filho, mas a mocinha apenas colocara o dedo sobre os lábios, naquele gesto de pedir silêncio, e saiu do quarto.
Vinte risquinhos depois da visita da menina, Isdora sentia que precisava de outro banho. Era muito incômodo ficar sem lavar os cabelos tanto tempo. Sua pele também coçava muito e no quarto havia pulgas, certamente atraídas pelo cheiro de suor.
“Onde está Islamal? Tem quase dois meses que estou aqui presa e ele ainda não apareceu. O que ele estará fazendo? E o povo da cidade, o que ele disse ao povo para explicar a ausência da família real?”, a rainha pensava, pensava, até a cabeça doer ou ela sentir que estava prestes a ficar louca. “Não Isdora, você tem de agüentar! Nada de ficar delirando”, dizia a si mesma. “Islamal virá e quando ele chegar, estarei esperando e ele vai se arrepender...”
Para acompanhar o começo da história:
I- A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
sábado, 8 de novembro de 2008
Retomando o fio da meada...
- Quando a história do príncipe Rajá vai terminar?
- Não sei ainda, estou pensando nos rumos da história.
- O minhocão gigante já apareceu?
- E tem minhocão gigante é?
- Tem sim, na história original tinha um minhocão quando ele visitava o reino embaixo da terra.
- Aaahh, é mesmo. Ainda não cheguei nessa parte...
- Quando vai chegar?
- Não tenho a menor idéia, a história é bem grande.
- Mas foi você quem inventou o princípe Rajá, devia saber quando termina!
- Eu inventei, mas agora acho que o príncipe Rajá se inventou sozinho.
- Não pode, ele não existe - pausa para pensar - Existe?
- Existe, na minha imaginação, na sua e na de quem ler o blog.
- Hummm...entendi, então ele está de férias! Só pode ser isso para essa história demorar tanto...
Para quem não lembra de Rajá, eis os links, desde o 1º post.
I- - A cidade de ouro e prata
II - A vida doce dentro das muralhas
III - A gaiola dourada e o passarinho triste
IV - O sinistro mago Islamal
V - O pedido de Rajá
VI - O plano de Islamal
VII - Aprendiz de hipnotizador
VIII - A floresta sem fim
IX - A língua universal
X - A feiticeira da lua crescente
XI - O rei destronado
O rei destronado - continuação
O rei destronado - final
XII - A rainha prisioneira - Parte I
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Nicholas Era...
mais velho que o pecado e sua barba não podia ficar mais branca. Ele queria morrer.
Os anões nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas chilreavam na deles e realizavam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando nas fábricas.
Uma vez por ano, forçavam-no, aos prantos e sob protestos, pela Noite Sem Fim. Durante a jornada, permaneceria ao lado de cada criança do mundo, deixando um dos presentes invisíveis dos anões ao pé da cama.
As crianças dormiam, congeladas no tempo.
Ele invejava Prometeu, Loki, Sísifo e Judas. Seu castigo era mais sombrio.
Ho.
Ho.
Ho.
domingo, 21 de setembro de 2008
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
A rainha Isdora acordou confusa. Também estava muito tonta e enjoada. Lembrava da última vez que se sentiu enjoada, quase 11 anos atrás, quando descobriu que esperava o príncipe Rajá. Mas dessa vez, o enjôo era diferente, não era por um bom motivo. Junto com o mal-estar, a rainha sentia um aperto no coração. A primeira coisa que notou foi que o rei Paxá não estava ao seu lado e que nem ela estava na cama certa. Em seguida, percebeu que o quarto também não estava certo, faltavam as suas cortinas amarelas, que filtravam a luz do amanhecer e davam uma claridade de sonho ao quarto. Também não ouviu o som de mastigação. O rei não estava comendo pãozinho com geléia e Rajá, com seus sapatinhos de pontas viradas para cima e turbante de pedrinha azul, não segurava para ela uma xícara fumegante de café fraco.
Com dificuldade, a rainha levantou da cama errada e começou a andar, explorando o quarto errado. “Onde é que eu estou”? – pensava, enquanto seus dedos deslizavam pelas cortinas vermelhas, que davam ao aposento uma luz irritante. Sobre uma mesinha, havia uma bandeja com comida. Alguém deixou café-da-manhã para ela, mas o café estava forte demais, o pãozinho não tinha geléia e faltavam também as frutas que ela tanto gostava de comer ao acordar. “Onde eu estou?” – A rainha sentia fome e mesmo não sendo o melhor desjejum que já tinha provado, comeu tudo o que estava na bandeja como se não visse comida há semanas.
Depois de comer, foi até a porta do quarto, mas estava trancada. Tentou a janela, mas percebeu que ficava no alto de uma torre. Olhou para baixo e viu que a cidade aparecia bem pequenina. Os moradores iam e vinham nas tarefas do despertar, tão miúdos quanto formigas. Tentou gritar, chamar por alguém, mas ninguém conseguia ouvi-la daquela distância. Lágrimas quentes escorreram pelo rosto da rainha. Ela sabia onde estava. Sempre foi mais esperta que o marido e sempre desconfiou que isso aconteceria algum dia. “Mas onde será que ele está? O que está tramando? Onde estão meu marido e meu filho?”
Isdora entendeu mais depressa que o seu rei, que não adiantava ficar desesperada, que aquilo era só o começo de um longo período de cativeiro, que talvez até durasse para sempre. Sem que ninguém precisasse contar a ela, compreendeu que era prisioneira na torre do mago Islamal, o meio-irmão de seu marido e conselheiro ambicioso do rei. “Ele estava esperando a chance de nos pegar e conseguiu...” – A rainha não entendia como Islamal havia dominado o reino e se preocupava com o que ele poderia ter feito ao marido e ao filho. Era difícil permanecer tranqüila, sem saber do paradeiro de Rajá e de Paxá. Ela temia que algo de muito ruim tivesse acontecido ao marido, mas sentia que seu filho estava bem. “Longe de mim, bem longe, mas está bem, eu sei que está.”
Não enlouquecer, não perder o controle e nem tentar nenhum ato desesperado, como se jogar da torre nas nuvens, por exemplo. “Você precisa ficar bem Isdora, para descobrir o que está acontecendo...”
A rainha sabia que Islamal, como todas as criaturas perversas, se alimentam do desespero alheio. Ela não daria alimento à maldade de Islamal. Mesmo que se sentisse muito triste, preocupada, deprimida, desesperada, em pânico, como, aliás, ela se sentia, não iria demonstrar nada disso ao mago cruel. “Ele não vai me dominar”.
A rainha da Cidade de Ouro e Prata estava certa de que mais dia, menos dia, Islamal viria até a torre cantar vitória, ela entendia corações frios como o dele e diversas vezes havia dito ao rei para mandar Islamal embora, mas seu marido era um bom homem, tinha o coração puro e nunca desconfiaria do próprio irmão.
Islamal viria, teria prazer em fazê-la sofrer contando os detalhes do seu plano diabólico. A rainha acreditava que havia um plano sinistro por detrás das cortinhas vermelhas que escondiam a janela da torre nas nuvens, da porta trancada e das ausências de Rajá e de seu marido.
“Tudo começou naquela noite em que Rajá nos mostrou números de magia... Se ao menos as lembranças não estivessem tão borradas, tão escondidas por névoas espessas...”
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; 02 e 09 de agosto).
sábado, 13 de setembro de 2008
Choro porque dói
traduz a dor bem marcada
No semblante, e na alma
Passageira, mas intensa
Mar de sal arde os olhos
Fere mais no sentimento
inundam, as ondas, e rugem
no peito ferido que sangra
Mar de sal que se mostra
sem vergonha da fraqueza
sem pudor, ao mundo revela
decepção, traição, solidão
Mar de sal, mas sal é vida
e vida é feita de sentir
intenso, amargo, bruto
profunda linha de lágrimas
sábado, 9 de agosto de 2008
As mil e uma aventuras do príncipe Rajá
A porta de madeira foi aberta com um rangido, o suficiente para que uma mão colocasse a jarra de água e o prato de comida para o prisioneiro. O rei Paxá, recostado na parede cinzenta e coberta de limo, repassava pela milionésima vez os últimos acontecimentos antes de acordar acorrentado em um calabouço que ele acreditava ficar no subsolo do seu próprio palácio. O barulho da porta de madeira sendo arrastada no chão de pedra chamou sua atenção. Ele tentou levantar-se, mas estava muito fraco. Arrastando-se, chegou até a comida e a água.
Mal tinha colocado o primeiro bocado na boca, a porta da cela se abriu e Islamal entrou. Ao ver o irmão, o rei Paxá sentiu-se muito feliz, queria até levantar para dar um abraço no seu conselheiro, mas as correntes pesadas e a fraqueza nas pernas não ajudavam muito. O olhar que Islamal lançou ao rei era tão inexpressivo que Paxá temeu pelo pior. “Será que ele foi enfeitiçado?” Arrastando-se de volta para o canto do calabouço e tentando se apoiar na parede para levantar, o prisioneiro perguntou: “Islamal, meu irmão, o que está acontecendo? Onde estão Rajá e Isdora? O que aconteceu com você? Por que estou aqui preso nesse calabouço? Onde estão os súditos da cidade...”
Islamal ergueu a magra e pálida mão direita, pedindo silêncio ao rei. Ficou estudando a fisionomia transtornada do irmão, a barba por fazer, as roupas sujas e rasgadas, as faces encovadas e as olheiras profundas de quem não come e não dorme direito faz muito tempo. Sentiu-se recompensado, vingado pelos anos em que viveu a sombra de Paxá, como o segundo homem do reino, o vizir, o conselheiro, e não como o governante, como aquele que recebia as homenagens. Enquanto Paxá era aclamado pelos súditos, amado por uma bela rainha e adorado por um filho muito esperto, Islamal tinha de se contentar em assistir toda aquela felicidade. Era demais para alguém como ele, que se julgava o mais inteligente dos homens, o mais poderoso dos magos. Vendo o ex-rei da Cidade de Ouro e Prata reduzido à condição de prisioneiro, beirando a indigência, todos os anos de mudo e silencioso ressentimento deixaram de pesar sobre a sua alma corroída pela inveja.
A vontade de Islamal era contar ao irmão, em detalhes, como o seu plano tinha dado certo. Como havia seduzido o príncipe Rajá com as aulas de magia, como levou o menino a criar uma poção do sono que fez o rei e a rainha dormirem por semanas. Como havia encorajado Rajá a viajar para conhecer a Floresta Sem Fim e aproveitando a ausência do príncipe, trancado o rei naquele calabouço. Queria também dizer ao irmão que finalmente, a rainha Isdora, que sempre o desprezara, era agora sua prisioneira. Que em breve, pretendia casar-se com ela, assim que comunicasse aos súditos, todos reduzidos à escravidão, que o seu bom rei havia morrido. Islamal pretendia ainda atormentar o rei descrevendo as mil e uma formas como Rajá, um menino de onze anos incompletos, poderia ter morrido, sozinho e abandonado, vitima das armadilhas da Floresta Sem Fim. Para finalizar sua cruel narrativa, o vil conselheiro pretendia ainda dizer de que forma iria transformar a Cidade de Ouro e Prata na sede do seu grande reino do mal, espalhando o terror entre todos os povos vizinhos.
Mas ele não disse nada disso. A história que ele contou foi assim:
- Paxá, meu irmão, que bom que você está vivo!! Levei dias procurando-o em todos os calabouços do Palácio de Ouro e Prata. Você não tem idéia do que aconteceu. Uma horda de invasores terríveis dominou a cidade. O príncipe e a rainha foram feitos prisioneiros. Só me deixaram vivo porque eu sou um mago que tem grandes poderes, como você bem sabe. Estou empenhado em descobrir para onde Rajá e Isdora foram levados e assim, ajudar vocês três a fugirem daqui. O líder da horda de invasores já anunciou que vai matar o menino e que pretende desposar a rainha. Ele também pretende deixar você apodrecer aqui para sempre e a cidade está toda arrasada, sem jardins, sem alegria. O povo se esconde com medo dos invasores. Tentarei voltar aqui outra vez para vê-lo e ajudá-lo a reencontrar sua família...
O rei Paxá, apesar das pernas fracas e das correntes pesadas, ergueu-se de um salto e alcançou Islamal quando o mago se aproximou da porta, com a intenção de ir embora.
- Meu irmão, o que está acontecendo? Que história louca é esta? Onde estão minha mulher e meu filho?... – as lágrimas escorriam do rosto do rei, que segurava as roupas do irmão, sacudia-o, implorava uma explicação. Era difícil para Islamal sustentar a farsa, manter seu teatro e fingir que a cidade estava dominada por inimigos desconhecidos. Ver o grande rei Paxá chorando era alegria demais para um só dia. Mas ele se controlou, escondeu a felicidade por trás do mesmo olhar inexpressivo que o ingênuo rei Paxá interpretava como sendo de piedade.
- Paxá, meu irmão e soberano, a quem devo respeito e obediência, também sou prisioneiro dos invasores. Eles me vigiam dia e noite, não posso ficar muito tempo aqui, ou eles vão desconfiar e também me colocarão num calabouço. Se isto acontecer, acabam-se as nossas esperanças de salvar a cidade e principalmente, salvar a sua família. Voltarei assim que puder com mais noticias.
Soltando as vestes das mãos tremulas do rei, Islamal deu uma batida na porta do calabouço, que se abriu para que ele saísse. O rei Paxá, que agora sabia ter se tornado um soberano destronado, ficou de pé, olhando a porta de madeira pela qual sua única esperança de escapar daquele pesadelo tinha acabado de sair.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daqueles de 01 e 02 de agosto).
sábado, 2 de agosto de 2008
O rei destronado (continuação)
O calabouço era frio, úmido e escuro. Uma janelinha minúscula deixava à mostra um quadradinho de céu suficiente para o rei saber se era dia ou noite, mas ele não sabia em que dia da semana estava, nem em que mês. Não tinha certeza se tinha dormido apenas uma noite antes de acordar na prisão ou se tinha dormido infinitas noites e, de repente, acordado para um pesadelo tão horrível.
Sentia fome e imaginava que, a menos que estivesse sob algum encantamento, não poderia ter dormido semanas ou meses, senão teria morrido de fome e sede. No entanto, sentia-se fraco e seus pensamentos eram os mais desencontrados e confusos. “A cidade foi invadida? Mataram minha família? Mataram todos e me deixaram aqui para morrer nesse porão? Mas quem invadiria a minha cidade? Não tenho inimigos!!”
Quanto mais pensava que alguma coisa terrível tinha acontecido com a esposa, o filho e os súditos, mais desesperado ficava o rei. Sua esperança era encontrar Islamal, mas em seus delírios imaginava que o irmão estava morto. Quando esse medo tão grande de ter perdido toda a família vinha, geralmente quando ficava muito escuro e não dava mais para ver o quadradinho de céu na janelinha do calabouço, o rei Paxá abraçava os joelhos e chorava.
Lamentava-se e também brigava consigo mesmo por nunca ter feito amizade com os reinos vizinhos. Se ele não tinha inimigos por viver isolado no seu palácio-cidade dourado, também não tinha amigos pelo mesmo motivo. Nessa hora de dificuldade, nenhum vizinho viria ajudar porque a Cidade de Ouro e Prata ficava longe demais de qualquer outro reino. Sem amigos, além da própria família e dos súditos, que ele julgava mortos, ninguém sentiria a falta do rei e por isso, não tentariam resgatá-lo. Ele estava condenado a viver no calabouço para sempre ou morrer de fome em mais alguns dias.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; 09 e 24 de julho; além daquele de 01 de agosto).
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
XI – O rei destronado (parte 1)
Enjoado, sem filho, sem esposa – finalmente ele percebeu que a rainha Isdora também tinha sumido -, o rei Paxá notou que estava sem quarto. Depois de piscar algumas vezes, de sacudir a cabeça, coçar os olhos e respirar fundo contando até dez, ele finalmente percebeu que havia alguma coisa errada, misteriosa e sinistra acontecendo. ”Onde está o meu filho? Cadê a minha esposa? Onde eu estou?”
Sem saber por onde começar a procurar, sem saber o que pensar, o rei quase entrou em desespero, mas de repente lembrou-se do seu sábio conselheiro, e meio-irmão, Islamal. “ Islamal vai saber o que aconteceu, onde estão minha mulher e meu filho, porque eu estou aqui nesse calabouço e porque não me trouxeram café da manhã ainda. Tudo o que eu preciso fazer é me levantar desse chão duro, ir até aquela porta de madeira ali e chamar o meu conselheiro...”
Não foi tão fácil. A primeira dificuldade encontrada pelo rei, além da barriga roncando sem o desjejum, foi que ele descobriu que estava amarrado. Pior, estava acorrentado pelos tornozelos a uma parede de pedra cinzenta e manchada de limo. A outra dificuldade é que o lugar da sua prisão parecia deserto, inóspito, sem uma alma viva a quem pedir socorro, nem moscas zumbiam na cela. “Que tipo de brincadeira é essa?” – pensava o rei, embora lá no fundo soubesse que não era brincadeira nenhuma. Ele estava em apuros e se o rei estava em apuros tão sérios, isso significava que a rainha e o príncipe também corriam perigo. Significava ainda mais, a sua Cidade de Ouro e Prata, cheia de beleza e de paz, estava ameaçada.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; além daqueles de 09 e 24 de julho).
quinta-feira, 24 de julho de 2008
X - A feiticeira da lua crescente
Rajá sonhava com a mãe e podia sentir a sua presença. Era muito bom estar de volta entre as almofadas macias e perfumadas do seu quarto, onde a rainha Isdora brincava com ele. Desde pequeno, o menino gostava de cochilar nas almofadas, ouvindo a voz da mãe cantar músicas muito antigas ou contar histórias que ela aprendia com os idosos sábios da Cidade de Ouro e Prata.
Era muito bom estar em casa depois de uma jornada estafante pela Floresta Sem Fim. Rajá queria se explicar, pedir desculpas por ter hipnotizado os pais, por ter colocado a poção do sono de Islamal no suco do rei e no café da rainha, queria dizer-lhes que estavam certos, que o mundo era grande e perigoso demais para ele, um menino de menos de 11 anos, enfrentar sozinho.
O príncipe estava cansado e a música, a voz da rainha era tão doce, que ele não conseguia explicar nada, não pensava direito, só sentia muito sono. Depois de noites inteiras ao relento, finalmente o menino dormia em um quarto aquecido. “Durma Rajá” – dizia a voz de sua mãe. Irresistível não atender ao apelo daquela voz.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
O príncipe Rajá dormiu cinco dias seguidos. Quando acordou, sentiu falta do peso da jibóia Hamida sobre a barriga. Percebeu que não estava na sua cama, nas almofadas macias, mas em uma cama, em um quarto, completamente diferente dos quartos do palácio onde morava. A mulher que olhava para ele era jovem, mais jovem que sua mãe. Ela era mais alta que Isdora e se vestia com um manto verde, salpicado de girassóis, estrelas, luas, tudo entrelaçado, formando desenhos estranhos. Tinha olhos verdes e os cabelos muito vermelhos, desciam soltos pelas costas.
“Você é a feiticeira da lua crescente?” – perguntou o menino.
“Meu nome é Ishstar, mas me chamam de feiticeira da lua crescente”
Aquela era a moça mais bonita que Rajá tinha visto em toda a sua curta vida e a primeira vez que ele via e falava com alguém que vivia fora da Cidade de Ouro e Prata, alguém que conhecia o mundo. Tinha centenas de perguntas para fazer à feiticeira, queria aprender com ela os segredos dos animais e plantas mágicas da Floresta Sem Fim, precisava saber também se era verdade que a feiticeira preparava uma poção que podia transformar qualquer coisa em comida. Como se pudesse ler a mente do menino, a feiticeira disse:
“Você terá todas as respostas que procura e vou ensiná-lo tudo o que quiser aprender. Seu esforço em me encontrar vale a pena ser recompensado com toda a minha sabedoria. Você será o meu primeiro aprendiz em muitos anos Rajá e espero que use com justiça tudo o que eu ensinar.”
Rajá mal acreditava que iria ser aceito como aprendiz da lendária Ishstar. Não via a hora de começar as lições. Antes, porém, precisava comer, estava com muita fome depois de ter dormido cinco dias seguidos. Outra coisa preocupava o menino, além da barriga roncando: Onde estava Hamida? Sua jibóia, que sempre o acordava de manhã, tinha sumido.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; 01 de junho; além daquele de 09 de julho).
quarta-feira, 9 de julho de 2008
IX - A língua universal

O príncipe Rajá cansou de ver árvores, pedras, rios, riachos, córregos, insetos, mais pedras, mais árvores e nenhuma feiticeira. O menino havia perdido a conta dos dias em que andava pela Floresta Sem Fim com a jibóia Hamida sobre o ombro, procurando a Feiticeira da Lua Crescente. Sorte que ele agora entendia a língua da cobra. Do contrário, a solidão e o silêncio já o teriam feito desistir da viagem. Todas as pedras azuis do seu turbante haviam sido trocadas por água ou por animais que caçava para comer. Em breve, se não encontrasse a feiticeira, teria de trocar as pedrinhas que enfeitavam a faixa real presa à sua cintura.
Durante a jornada, Hamida contou para Rajá que todas as crianças nascem com a capacidade de entender a língua dos animais e das plantas. Elas também sabem falar com pedras, com a água dos rios, com a chuva e com a terra. Quando crescem, esquecem essa língua e os poucos que se recordam do idioma universal que une todas as criaturas, são considerados mágicos ou loucos. Na verdade, continuava Hamida, magos e feiticeiras são apenas adultos que cresceram por fora, mas continuaram crianças por dentro. Todas as crianças, dizia a jibóia, podem fazer magia, pelo simples fato de que as crianças acreditam que tudo é possível.
Rajá pensava nas lições de Hamida e sentia um aperto no coração. “Se tivesse me lembrado da língua universal antes, não precisaria aprender hipnotismo com tio Islamal e nem teria feito aquela poção tão forte, que deixou meus pais desacordados”. A culpa crescia dentro do menino como erva daninha. Embora uma parte do seu coração quisesse continuar acreditando em Islamal, uma outra, cada vez maior, dizia que o jovem príncipe tinha feito uma coisa muito errada confiando seu reino e seus pais adormecidos ao tio.
Muitas vezes ele pensou em desistir, muitas outras vezes mudou de idéia e resolveu que continuar era necessário. Um pressentimento de que a Cidade de Ouro e Prata corria perigo rondava os pensamentos de Rajá. A certeza de que, quanto mais ele aprendesse sobre o mundo, mais fácil seria livrar seu palácio desse terrível perigo, o fazia continuar na busca pela feiticeira.
Cansado depois de mais um longo dia de caminhada, com fome e de mau-humor, o menino tirou a cobra do ombro e sentou-se sob uma árvore. Na sua sacola havia um último pedaço da carne assada que sobrou da caçada do dia anterior. Rajá dividiu a carne em dois pedaços, um para ele e um para Hamida. A jibóia preferia carne fresca, mas como para cada bichinho que engolisse, seu dono teria de deixar uma pedrinha preciosa em troca, a cobra se contentava em comer pedaços da caça preparada por Rajá.
Os pés do príncipe estavam cheios de bolhas e cada vez que ele andava com seus sapatos de pontinhas viradas para cima, as bolhas estouravam e novas bolhas nasciam por cima da pele esfolada. O destemido Rajá, com o turbante sem pedrinhas, os pés mal-tratados e a barriga roncando de fome queria muito estar deitado em almofadas macias, com um braseiro quentinho sob um cobertor que lhe cobriria as pernas.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; 01, 03, 18 e 21 de maio; além daquele de 01 de junho).
sábado, 28 de junho de 2008
E a saga do príncipe Rajá continua...

Entre pausas e tentativas de versejar, a história do príncipe Rajá vai sendo escrita. Linha a linha, palavra a palavra, aventura a aventura. Para quem nunca ouviu falar desse menino de 11 anos incompletos que viaja na companhia de uma jibóia de estimação, por terras só imaginadas, eis um pequeno resumo, antes de começar um novo capítulo:
O príncipe Rajá nasceu na riquíssima Cidade de Ouro e Prata, um gigantesco palácio que fica na fronteira de terras misteriosas e que por ter tantos quartos, alas e jardins, é conhecido em toda a região como Cidade de Ouro e Prata. Os habitantes desse lugar encantado têm medo de sair do seu aconchego e conhecer o mundo do lado de fora das muralhas. O rei Paxá, pai do príncipe Rajá, acredita que dentro das suas paredes douradas está a salvo dos perigos e perfídias do mundo. Ele não sabe que o maior perigo está justamente dentro do palácio, atende pelo nome de Islamal e é o tio de Rajá e seu conselheiro. Um dia, o príncipe Rajá, sem desconfiar das tramas do tio, aprende lições de hipnotismo, hipnotiza os pais e foge do palácio para viver as grandes aventuras de seus sonhos...
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e
domingo, 1 de junho de 2008
VIII - A Floresta Sem Fim
A Cidade de Ouro e Prata ficava numa clareira muito iluminada, no último pedaço de terra antes da Floresta do Sem Fim. A floresta era enorme e demorava-se mais de dois meses para percorrê-la inteira de norte a sul, de leste a oeste, daí o seu nome Floresta do Sem Fim. Poucos se aventuravam a explorar a vastidão, pois era muito fácil se perder e nunca mais achar o rumo de casa. A diferença para os jardins da Cidade de Ouro e Prata é que estes, apesar de imensos, confundiam os viajantes por sua beleza, os aromas e os animais encantadores. Já a Floresta do Sem Fim era um lugar estranho, sua beleza era assustadora e os animais, mais selvagens e traiçoeiros. As árvores falavam uma língua antiga e costumavam mudar de lugar, para que quem entrasse na mata, nunca conseguisse usá-las para marcar o caminho de volta.
(Para conhecer mais sobre a história do príncipe Rajá, acesse os posts dos dias, 18, 19, 20, 23 e 26 de abril; além daqueles de 01, 03, 18 e 21 de maio).