O que vejo, no espelho
um reflexo, miragem
princípio sem fim.
O que vejo, no sonho
o avesso do espelho
e o contrário de mim.
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domingo, 1 de março de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Morpheu e os anjos entram em acordo
A discussão no céu estava animada. Ora o rei Morpheu berrava de um lado, ora O Arcanjo berrava do outro. Na maioria das vezes os dois berravam ao mesmo tempo e ninguém entendia nada. Os dois poderiam passar a eternidade inteira debatendo a questão, sem que ninguém soubesse direito de quem era a razão. No mundo das pessoas as vezes também é assim, discute-se eternamente sem que nenhum dos lados seja o vencedor. Mas, o menino que não gostava de dormir precisava descansar, pois ele já andava com olheiras roxas gigantescas, sem concentração na escola e literalmente cochilando em pé. Foi então que o anjo porteiro, aquele sem auréola, que pediu a carteira de identidade do rei do sono, apareceu na sala do trono do Arcanjo com uma sugestão:
- Con licença, majestades - disse o anjo porteiro. - Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.
Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:
- O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia... então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom...
Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:
- ...a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele "dormiria com os anjos" (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho...
Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, de vez em quando, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino. O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor para ideias incrivelmente simples e completamente geniais do Arcanjo.
O começo da noite sem sono:
>>I - O menino que não gostava de dormir
>>II - Uma audiência com Morpheu
>>III - Diálogo do sono e do menino insone
>>IV - Uma viagem ao reino dos anjos
>>V - Uma audiência com o rei dos anjos
- Con licença, majestades - disse o anjo porteiro. - Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.
Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:
- O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia... então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom...
Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:
- ...a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele "dormiria com os anjos" (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho...
Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, de vez em quando, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino. O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor para ideias incrivelmente simples e completamente geniais do Arcanjo.
O começo da noite sem sono:
>>I - O menino que não gostava de dormir
>>II - Uma audiência com Morpheu
>>III - Diálogo do sono e do menino insone
>>IV - Uma viagem ao reino dos anjos
>>V - Uma audiência com o rei dos anjos
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Uma audiência com o rei dos anjos
O Arcanjo era mais alto que Morpheu e isso aborreceu o rei do sono, que gostava sempre de ser mais importante que todo mundo. Ele era metido, mas era um bom rei, cuidava direitinho dos sonhos e dos pesadelos das pessoas. O rei dos anjos era um sujeito muito prático, que não perdia tempo com cortesias e foi direto ao assunto. O rei Morpheu gostava de caminhos mais demorados para resolver os problemas e apreciava gestos de boa educação, como mandar a visita sentar na cadeira ou almofada mais confortável da sala e oferecer um suco de limão geladinho. No céu não tinha suco de limão. Anjos se alimentam de luz, mas da última vez que comeu luz, Morpheu teve azia. O Arcanjo foi direto ao ponto:
- Você veio me visitar para falar de um menino que não gosta de dormir?
- É isso aí, respondeu Morpheu displicentemente - eu não gosto muito de sair de casa, ainda mais com esse trânsito hoje em dia. As estradas para o céu estão muito esburacadas sabia? Você devia mandar arrumar...
Um pigarrinho do Arcanjo fez o rei do sono parar de enrolar:
- O negócio é o seguinte colega, - os dois eram reis, Morpheu achou que podia chamar o Arcanjo de colega, mas o outro não gostou muito da intimidade - tem um menino na terra que não dorme porque os seus anjos ficam lá puxando conversa com ele e se ele não dorme, significa que eu não consigo fazer meu trabalho direito, que é botar o menino para sonhar. Então, eu vim aqui para você resolver a situação.
O Arcanjo arqueou uma sobrancelha:
- Caro senhor Morpheu, eu não posso me meter nas atividades que os anjos executam nos seus momentos de folga. Eles são livres para ir aonde quiserem e falar com quem bem entenderem.
Morpheu não estava gostando nadinha daquele rei dos anjos. Além de péssimo anfitrião, ainda era malcriado!
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
>>Uma viagem ao reino dos anjos
- Você veio me visitar para falar de um menino que não gosta de dormir?
- É isso aí, respondeu Morpheu displicentemente - eu não gosto muito de sair de casa, ainda mais com esse trânsito hoje em dia. As estradas para o céu estão muito esburacadas sabia? Você devia mandar arrumar...
Um pigarrinho do Arcanjo fez o rei do sono parar de enrolar:
- O negócio é o seguinte colega, - os dois eram reis, Morpheu achou que podia chamar o Arcanjo de colega, mas o outro não gostou muito da intimidade - tem um menino na terra que não dorme porque os seus anjos ficam lá puxando conversa com ele e se ele não dorme, significa que eu não consigo fazer meu trabalho direito, que é botar o menino para sonhar. Então, eu vim aqui para você resolver a situação.
O Arcanjo arqueou uma sobrancelha:
- Caro senhor Morpheu, eu não posso me meter nas atividades que os anjos executam nos seus momentos de folga. Eles são livres para ir aonde quiserem e falar com quem bem entenderem.
Morpheu não estava gostando nadinha daquele rei dos anjos. Além de péssimo anfitrião, ainda era malcriado!
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
>>Uma viagem ao reino dos anjos
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Uma viagem ao reino dos anjos
Viajar para o céu tinha suas inconveniências. A distância, os meteoros e meteoritos, a falta de placas de sinalização e os anjos estagiários, sem carteira de motorista, eram sem dúvida os maiores incômodos. Morpheu não gostava muito de sair dos seus domínios. Ele era um rei recluso, taciturno. Alguns diriam que era mau-humor por tantos milênios sem dormir. O rei dos sonhos chegou às portas do reino dos anjos, sacudiu a poeira estelar da capa e esperou que viessem abrir a porta. Veio um anjo muito solene, vestido em túnica azul celeste, com as asas brancas dobradas atrás das costas. Não usava auréola. "Auréola só serve para impressionar os crédulos humanos, mas é muito desconfortável". Morpheu se identificou muito a contragosto. Como todos os reis, esperava ser reconhecido e por isso ficou muito aborrecido quando o anjo porteiro pediu para ver a sua carteira de identidade. Depois de toda a burocracia para entrar no palácio do céu, finalmente ele foi levado à presença do rei dos anjos, que não tinha nome nem nada, simplesmente era conhecido como O Arcanjo...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
>>Diálogo do sono e do menino insone
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Diálogo do sono e do menino insone
No palácio de Morpheu, onde o menino que não gostava de dormir estava de visita, acontecia um diálogo que não era bem o que o rei do sono esperava:
- Por que você não gosta de dormir, menino?
- E por que você só fica acordado?
- Eu perguntei primeiro!
- Mas eu sou mais novo e mais curioso. Além disso, sou a visita. Diz a etiqueta que o anfitrião precisa ter a visita em altíssima conta.
- E de onde a minha visita tirou um vocabulário tão erudito?
- Dos livros ora essa! E das conversas com os anjos.
- Então você conversa com anjos?
- Só de madrugada, quando o expediente no céu termina e eles não tem nada para fazer lá no alto, daí descem e ficam batendo papo com as crianças.
- E se você dormir eles não puxam conversa?
- Claro que não! O senhor por acaso já tentou falar dormindo?
- Eu não durmo.
- Pois devia. Meu pai diz que dormir faz ficar inteligente e minha mãe diz que dormir faz ficar forte.
- E por que você não dorme? Eu, por exemplo, gostaria, mas não posso dormir. Não tem ninguém para cuidar do palácio se eu dormir e nem para cuidar dos sonhos das pessoas e afastar os pesadelos.
O menino abriu um sorriso insinuante de orelha à orelha. O rei Morpheu sabia que estava encrencado e teria de pedir audiência com o rei dos anjos...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
- Por que você não gosta de dormir, menino?
- E por que você só fica acordado?
- Eu perguntei primeiro!
- Mas eu sou mais novo e mais curioso. Além disso, sou a visita. Diz a etiqueta que o anfitrião precisa ter a visita em altíssima conta.
- E de onde a minha visita tirou um vocabulário tão erudito?
- Dos livros ora essa! E das conversas com os anjos.
- Então você conversa com anjos?
- Só de madrugada, quando o expediente no céu termina e eles não tem nada para fazer lá no alto, daí descem e ficam batendo papo com as crianças.
- E se você dormir eles não puxam conversa?
- Claro que não! O senhor por acaso já tentou falar dormindo?
- Eu não durmo.
- Pois devia. Meu pai diz que dormir faz ficar inteligente e minha mãe diz que dormir faz ficar forte.
- E por que você não dorme? Eu, por exemplo, gostaria, mas não posso dormir. Não tem ninguém para cuidar do palácio se eu dormir e nem para cuidar dos sonhos das pessoas e afastar os pesadelos.
O menino abriu um sorriso insinuante de orelha à orelha. O rei Morpheu sabia que estava encrencado e teria de pedir audiência com o rei dos anjos...
O começo da noite sem sono:
>>O menino que não gostava de dormir
>>Uma audiência com Morpheu
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Uma audiência com Morpheu
O menino que não gostava de dormir viajou ao Reino do Sonhar em busca de uma audiência com o rei Morpheu. O soberano em pessoa veio recebê-lo na porta do seu palácio de sonhos. Os dois, lado a lado, passaram pelas grandes portas douradas e sentaram-se em confortáveis almofadas. Tudo na sala do trono do rei Morpheu é sedutor e preparado de modo a aconchegar, embalar e levar os rebeldes, como o menino, ao sono profundo. Mas, como o menino não é bobo nem nada, ele passa as noites conversando em sonhos. Morpheu, que nunca dorme, encontrou companhia para a eternidade de espera. Do quarto do menino vem o som das conversas. A língua estranha, desconhecida, "língua dos anjos" que os homens não falam, é de impossível entendimento para os outros moradores da casa. Há quem pense que ele está "pesadelando". Mas secretamente, faz companhia ao solitário rei do sono.
domingo, 4 de janeiro de 2009
O menino que não gostava de dormir
Quero lhes contar uma história, sobre um menino que queria enganar o rei Morpheu. Noite após noite o menino fugia do sono. Dormir é chato, porque à noite não dá para brincar. Mas o menino esquecia que só quando dormimos abrimos as portas do reino do sonhar. Ele tentava todos os truques, para de Morpheu escapar: assistia TV, cuidava em ler um livro, puxava conversa com todos os bonecos de olhos pintados do seu quarto. Mas o rei do sono é poderoso e seu poder incomparável, quando menos o menino esperava, já estava aninhado, embalado e roncando...
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Baladinha de Morpheu
Para Matheus
Colherei da árvore dos teus sonhos e os guardarei em um cesto de vime, embaixo daquele pé de abacate. Um dia, quando for grande e no cesto teus sonhos não mais couberem, e o pé de abacate já não existir;lembrarás da tarde em que juntos rimos de cada sonho, espiando ansiosos pela fresta na tampa de vime, temerosos e à espreita, para não deixar nenhum sonho fugir.
Colherei da árvore dos teus sonhos e os guardarei em um cesto de vime, embaixo daquele pé de abacate. Um dia, quando for grande e no cesto teus sonhos não mais couberem, e o pé de abacate já não existir;lembrarás da tarde em que juntos rimos de cada sonho, espiando ansiosos pela fresta na tampa de vime, temerosos e à espreita, para não deixar nenhum sonho fugir.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Para Matheus
Menino pequeno, de grandes sonhos
Sonhos que não cabem nesse menino
E bondosamente, ingenuamente
pela casa espalhados em ecos de cristal
crescem os sonhos e esperam
que o menino também cresça
e quando homem se tornar
nunca deixe de sonhar.
Sonhos que não cabem nesse menino
E bondosamente, ingenuamente
pela casa espalhados em ecos de cristal
crescem os sonhos e esperam
que o menino também cresça
e quando homem se tornar
nunca deixe de sonhar.
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