domingo, 30 de março de 2008

Duas marias adolescentes

Maria Luiza aprendeu a andar amparada pelas mãos de Maria Helena, que fez das tentativas e erros da amiga, um acontecimento literário. A imaginação de Leninha era maior que ela, mesmo aos oito anos. A capacidade de mostrar a realidade sempre banhada em luz amarela pertencia a Marilu, quatro anos mais nova. Dez mil anos mais velha.

Na rua onde as duas moravam, a vizinhança havia se acostumado a vê-las sempre juntas. Estudavam na mesma escola e no mesmo turno. No caminho, Maria Helena, as mochilas, a mão direita segurando a esquerda de Marilu com firmeza, as lancheiras e um arsenal de histórias que não se esgotava nunca e só era interrompido à porta da sala da alfabetização de pró Sônia.

"Venho te buscar mais tarde" - beijo na bochecha.

“Leninha, minha mãe disse que as nuvens são feitas de algodão doce”

“Ihh Marilu, que idéia boba, as nuvens não são de algodão doce”

“E porque não? minha mãe falou” - pró Sônia, a essa altura, já atravessava a sala para saber porque Maria Luiza não entrava de uma vez.

“Porque elas não são coloridas para serem de algodão doce. As nuvens são formadas pelo sopro de um dragão adormecido, que toma conta de uma linda princesa, que mora num castelo no céu”

“Aaaah!!” - E Marilu ficava espiando Leninha dobrar o corredor rumo á segunda série.

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Os deveres de casa de Marilu eram ensinados por Leninha. Para acompanhar a amiga mais velha, a menor aprendeu desde cedo a compartilhar a vida de quem tinha chegado ao mundo antes dela.

Ser a caçula da turma era mais que ostentar o título de melhor amiga de Maria Helena. Era uma conquista diária e árdua. Provar às meninas mais velhas que ela merecia pertencer àquele grupo é que era o desafio.

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As histórias de dragões e princesas nas nuvens não convenciam mais Maria Luiza. Na adolescência, os quatro anos de diferença pesaram e as primeiras brigas começaram. Aos dezesseis, Leninha alternava espirituosidade e melancolia profunda cada vez que assistia a um filme comovente ou descobria um novo autor. Aos doze, Maria Luiza havia beijado quatro meninos na boca e aposentado todas as bonecas.

Quem tinha permissão para namorar era Leninha. E tinha um namorado. Dois anos mais velho, tão sonhador quanto ela, igualmente escritor, duas vezes mais melancólico. Maria Luiza implicava com o namorado da amiga. Implicava com as roupas que ela usava, com o corte de cabelo.

“Você está gorda, Maria Helena!”

“E você está entrando na puberdade, eu sei o que é isso, vai passar”

“Esse seu namorado é um bocó”

“hum rum”

“Detestei seu último conto publicado no jornal da escola”

Som de porta batendo. Marilu debruça na janela, com ar de vitoriosa. Leninha atravessa a rua que separa a casa das duas, em passos marciais. Um mês sem trocarem palavra. Um mês sem irem juntas para a escola. Trinta dias, seis horas e nove minutos sem convites para ir ao cinema e sem sorvetes lambidos na escadaria da igreja, ao cair da tarde. Marilu até tentou, adulou, tirou do arsenal de luz, o sorriso mais brilhante. Só não sabia que estava de castigo. Tinha atravessado a fronteira que separa a simples critica a um namorado bocó e invadido o território sagrado da vaidade de uma escritora adolescente.

Um comentário:

pequenasdigressoes disse...

você conseguiu me deixar sem saber o que escrever. e bem deve saber o porquê... mas o que posso dizer é que, independente de qualquer coisa, luz nunca há de faltar...