sábado, 5 de abril de 2008

Um final para o conto das duas marias

Na tarde em que Maria Clara resolveu sair de casa, ela e “dinda” Marilu haviam chegado à conclusão de que a melhor forma de dar a noticia da partida da única filha para Maria Helena era dizer tudo de uma vez.

Clarinha surpreendeu a mãe em um dos seus devaneios criativos. Vê-la andando de um lado para o outro do gabinete de leitura, murmurando trechos de falas de personagens, deu um nó no peito. Como quebrar o encanto daquele momento para dar a noticia?

Atravessar a fronteira faz as pernas tremerem, o suor inundar o corpo, mas uma vez que o primeiro pé ultrapassou a linha divisória, a sensação de invencibilidade domina. Ao entrar no gabinete e interromper o monólogo da mãe, Maria Clara sentiu que o poder havia mudado de mãos.

“Mamãe, preciso te contar uma coisa...”

“Quando você viaja?”

“Como você descobriu? Dinda Marilu prometeu que não ia falar nada”

“No dia em que sua dinda precisar me contar alguma coisa é porque já fiquei gagá e perdi a capacidade de ler os pensamentos dela como um livro”

“Vocês duas metem medo, parecem que tem poderes mágicos.”

"Eu não te contei antes filha porque você era pequena e não ía entender, mas nós temos. Sua dinda e eu somos fadas".

"Mãe, corta essa, eu tenho 25 anos!"

"Eu sei, e nenhum senso de humor"

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Marilu riu aquela gargalhada característica e que a tornava tão fascinante. Diante do embaraço de Maria Clara foi taxativa: “Você devia ter se acostumado, é impossível esconder o quer que seja da sua mãe. Você a encontrou na lua certa, graças a Deus”.

Contrariando o excesso de zelo da filha, Maria Helena até ajudou na preparação das malas, na documentação para a viagem. O pai ficou mais sentido, embora lá no fundo, estivesse feliz em ter Leninha só para ele. “Pra mim e pra Marilu”, resignava-se.

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A fotografia era a paixão de Clarinha. Quando criança, mexia nos rolos de filme da madrinha. Começou ajudando a carregar lentes e sacolas. Daí aos primeiros cliques e deles ao convite para trabalhar na agencia internacional foram só alguns anos de árduo aprendizado e de uma tenacidade dignas de Maria Luiza.

Maria Helena iria sentir falta da filha, mas o orgulho por ela ter escolhido um caminho próprio superava a saudade. Fotografar a situação das mulheres em zonas de conflito. Revelar através da imagem a dor das mães que perdem filhos, das esposas que perdem os amados, das meninas que perdem a infância...

Leninha não cabia em si de tanta vaidade. A menina tinha miolos. Iria fazer alguma coisa boa pela humanidade, revelar ao mundo a opressão em que tantas mulheres viviam. Nenhuma lágrima mesquinha e egoísta iria manchar a despedida de Clarinha. No aeroporto, um abraço apertado, palavras secretas (de mãe para filha) sussurradas ao pé do ouvido e a promessa de cartas semanais e telefonemas ao menos a cada 15 dias. Emails estavam descartados, porque Leninha ainda não se acostumara ao uso do computador.

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“Pena que ela não quis casar com o Luis Fernando”.

“Ela não iria agüentar as variações de humor dele Leninha. Não depois de ter passado a vida inteira pisando em ovos com você”.

“Tá me dizendo que a minha filha vai se jogar no meio de uma guerra por minha causa!”

“Não, mas é que ser criada por você a tornou capaz de uma compaixão infinita pelo sofrimento alheio, mas muito pouco paciente a maridos bipolares.”

“E o Nandinho, o que ele vai fazer da vida?”

“Escrever”.

“Sobre dor de cotovelo e a história de uma namorada de infância, quase noiva, que aprendeu a fotografar com a mãe dele e que o trocou pela aventura de se arriscar em fronteiras bélicas?”

“Sobre isso também, mas me disse que vai começar por nós duas“.

“Mas nós somos tão normais Marilu, o que é que o seu filho pode escrever sobre a gente? Que graça tem contar a história de duas mulheres que podiam ser qualquer uma?”

“Exatamente isso, escrever que a nossa historia tão prosaica podia ser a de qualquer mulher.”

Um comentário:

pequenasdigressoes disse...

posso dizer que você fez lágrimas encherem os olhos desse ser gélido, mas de alma quente, que vos fala... sem palavras mais uma vez. só lágrimas. alane.