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quarta-feira, 5 de março de 2008

Exercício de jornalismo literário - Final

XVI – Fortuna dilapidada

Da abertura do testamento, em 16 de julho de 1592, até os beneditinos finalmente receberem a herança de Gabriel Soares, passaram-se muitos anos de maus entendidos, confusões e espera pelo reconhecimento do governador, do direito dos monges sobre as terras antes pertencentes ao senhor de engenho. No meio do processo, é bem provável que boa parte dos bens tenha sido desviada do seu fim original.

Reforçam a tese de que a herança era puro golpe de marketing do cronista, declarações como a de Frei Vicente do Salvador, que afirma que durante a longa permanência na Espanha, Gabriel gastou muito dinheiro com os requerimentos à coroa para conseguir autorização para montar sua expedição.

Outro adepto da versão de que a herança era um presente de grego é o monge Mateus Ramalho Rocha, que contou a história da chegada de sua ordem à Salvador. Ele escreve que somente em 1604, depois de pagar as dividas deixadas por Gabriel, “que o mosteiro pôde entrar na posse de um pedaço de terra, no caminho da Vila Velha, da banda do mar e da outra, que nenhum dos credores lançou mão por ser muito estéril e de pouco proveito”.

Do outro lado, defendendo os interesses de Gabriel Soares de Souza estão, além do seu próprio testamento, ditado por um homem “são e bem disposto, em todo o seu entendimento e perfeito juízo”, pesquisas como a dissertação de Herminia Oliveira Hernandez: O patrimônio territorial do mosteiro de São Bento da Bahia, defendida em 2000, no mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia. A pesquisadora levantou que os terrenos doados por Gabriel ao mosteiro incluíam a Piedade, Largo dos Aflitos (incluindo a igreja), o largo do Accioli (Dois de Julho) a área do Forte de São Pedro e Passeio Público, além da Fortaleza da Gamboa. Uma imensidão de 29 ruas e 473 terrenos.

A memória das mudanças que essas ruas sofreram desde a época das sesmarias até os dias atuais, se apaga na mesma velocidade em que os historiadores contemporâneos se desinteressam da época colonial. Enquanto o tempo avança, Gabriel Soares de Souza, o primeiro senhor do Solar do Unhão, ex-colono e lavrador, dono de engenhos no Recôncavo, bandeirante e cronista do rei, se torna um personagem remoto na história de Salvador, cidade que ele ajudou a criar com o seu texto carregado das coloridas tintas do século XVI.

Andréia Santana, último trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia.

Exercício de jornalismo literário em capítulos

XV – Herdeiros universais

Gabriel se preocupou com a extrema pobreza em que viviam os religiosos da ordem de São Bento, que sobreviviam da caridade das famílias influentes de Salvador. Chegou até a escrever ao rei contanto o estado de penúria dos monges baianos, o que contrariava a fama de riqueza que os beneditinos, uma congregação milenar, possuíam na Europa.

Gabriel também pedia providências para que o mosteiro pudesse se desenvolver. Explicava como era importante a permanência dos religiosos na cidade para ajudar no processo de conversão dos índios, além de cuidar das almas dos colonos. Por outro lado, é também o cronista quem descreve os engenhos mantidos pelos beneditinos no recôncavo baiano, como o de São Bento das Lages, onde no século XIX foi construída a Real Escola de Agronomia.

Foi pensando em ajudar a sobrevivência e garantir a expansão da ordem na Bahia que Maria Carneira e seu marido inauguraram as doações pias em Salvador. Seguiu o exemplo do casal, além de Gabriel Soares, a índia Catarina Paraguaçu, também responsável por uma gorda contribuição para os cofres do mosteiro.

Nas terras de Gabriel Soares, o próprio cronista sugeria que os monges fizessem “muitas teresinas ao longo do mar para alugar”. As teresinas eram cortiços construídos para abrigar as famílias menos abastadas. O cronista deixava ainda foros de casa para serem administradas pelo mosteiro e nomeava como testamenteiro, a própria mulher. Na falta dela, um padre de confiança deveria executar as determinações.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

XIV – O testamento
“Declaro que os chãos que tenho nesta cidade (...) e a terra que tenho valada no caminho da Vila Velha da banda do mar e da outra banda, queria que ficasse tudo a meu quinhão por tudo ser muito necessário para o mosteiro (...) e por aqui hei este testamento acabado pelo qual hei de por revogado todos os que tenho feito antes deste e este só quero que valha porque esta é minha derradeira vontade no qual fiz por minha mão e assinado por mim Gabriel Soares de Souza.”

Quase sete anos em Madrid e Gabriel Soares de Souza não esquecia as praias baianas. Talvez para manter viva a lembrança da terra que adotou para viver, o cronista tenha dedicado a segunda parte de Noticias do Brasil à narração da “memória e declaração das grandezas da Bahia”.

Engenhos, igrejas, a natureza, o cotidiano e os costumes da recém nascida Salvador, tudo foi registrado com grande competência e o tempero amargo da saudade.

Apesar do cuidado que teve em preservar a memória da cidade, quatro séculos atrás, atualmente resta bem pouco na capital que lembra o seu tempo. Os passos de Gabriel estão na ladeira de São Bento? Tantos carros e pessoas circulam por lá diariamente que já devem ter apagado o rastro deixado por ele.

Será que suas botas ecoam no chão de pedras do Unhão? Foi ele o primeiro desbravador daquela encosta. Construiu um engenho onde hoje funciona o Museu de Arte Moderna da Bahia, mas ao invés de chamar-se Solar Soares de Souza, o conjunto preservou o nome de Pedro de Unhão Castelo Branco. Pouca gente sabe que o solar, antes de virar museu ou de ser transformado, no século XIX, em fábrica de rapé, foi herdado pelos beneditinos junto com todos os outros bens do cronista.

A herança de Gabriel Soares de Souza, como não poderia deixar de ser em se tratando de um homem do qual não resta nem um retrato, é capítulo nebuloso e polêmico na grande aventura da sua vida. Há quem defenda que a herança nunca existiu e que os monges receberam somente um testamento bem escrito, exemplo da retórica quinhentista. Outros pesquisadores confirmam que Gabriel Soares de Souza legou uma fortuna em terras e imóveis ao mosteiro de São Bento da Bahia.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia.


Exercício de jornalismo literário em capítulos

XIII - Pecador penitente

Gabriel se achava um pecador que não merecia ostentar o nome de um anjo de elevada hierarquia na corte celeste. Temeroso de que sua alma fosse condenada ao inferno, levava uma vida de penitente arrependido. Era irmão leigo da Ordem de São Bento e irmão terceiro do Carmo e São Francisco.

No seu testamento, além da doação de todos os seus bens para o mosteiro de São Bento, legou esmolas de cinco mil réis para cada frade que acompanhasse o enterro. Como morreu no meio do mato e foi inumado às presas num fortim erguido à beira de um rio, é bem provável que os frades não tenham visto a cor das moedas.

As más línguas de ontem e hoje podem até dizer que Gabriel estava literalmente comprando um cantinho no céu, ou no purgatório, porque tinha culpas a expiar. Não se sabe se tanta religiosidade era fruto de algum remorso que carregava ou se era mais uma expressão típica do homem do século XVI, receoso de todos os castigos que os padres pregavam durante a catequese.

Por via das dúvidas, decidiu que a condição para os monges receberem sua gorda herança era rezarem 150 missas, 15 delas cantadas, logo depois de sua morte e, a partir daí, dizerem preces por sua alma “até quando o mundo durar”. Melhor também seria garantir a entrada no céu por todos os meios possíveis, apelando para Nossa Senhora, a advogada eterna, São Francisco, São Sebastião, São Lourenço e todos os santos mártires, “de maneira que o Deos em mim pos o pensamento em meus pecados temendo a estreita comta que delles hei de dar a Nosso Senhor...”

Demonstrando humildade, pediu ainda que no seu túmulo não constassem nomes ou datas, mas apenas os dizeres “Aqui jaz um pecador”.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junhod e 20094, no jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

XII - Minas de prata

Como muitos portugueses que cruzaram os mares, Gabriel veio ao Brasil em busca das promessas da colonização. No testamento, nas raras vezes em que se refere a si mesmo, deixa escapar que não herdou fortuna do pai, construindo seu patrimônio “por minha indústria e trabalho”. Será que era pobre antes de chegar à Bahia? E se não tivesse escrito Noticias do Brasil, seria só mais um colono não meio de milhares? Com tão poucas referências sobre sua vida e na falta de um biógrafo, era de se esperar que Gabriel fosse associado a diversas lendas. Uma delas, diz que ele foi o descobridor das primeiras minas de prata do Brasil, o que não passa de conversa para embalar sono de menino.

A expedição organizada por Gabriel, depois de muito penar no meio do mato, conseguiu chegar somente até alguns pântanos infestados de mosquitos. Com a sua morte, Julião da Costa assumiu o comando dos sobreviventes e mandou uma mensagem ao governador em busca de novas ordens. Francisco de Souza ordenou o retorno deles para Salvador e cancelou a bandeira. Alguns anos depois, o bandeirante Belchior Dias Moréia ouve de um dos sobreviventes da frustrada viagem às maravilhosas histórias sobre a carta do irmão de Gabriel e decide partir em busca das lendárias jazidas de Eldorado.

As aventuras de Belchior serviram de base para que José de Alencar escrevesse As Minas de Prata. A lenda das riquezas inimagináveis, porém, é bem mais antiga do que o romance ou a viagem de Gabriel.

Desde o século XV, os espanhóis buscavam os tais tesouros na América. Conseguiram explorar bastante ouro e prata no seu lado da linha de Tordesilhas, enquanto os portugueses ainda se ocupavam em garantir a posse do vasto litoral brasileiro.

Nas histórias mais antigas, o eldorado brasileiro também sempre foi procurado na região amazônica. Somente com João e depois com Gabriel Soares de Souza, essa perspectiva muda de lugar e chega até as margens de rios como o Paraguaçu e o São Francisco. A versão do mito reescrita por esses exploradores, colocou o Nordeste do Brasil no roteiro dos caçadores de esmeraldas.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004 no Jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

XI - Quase um solitário

Casado com uma mulher chamada Anna de Argolo, não se sabe se casou no Brasil ou se já veio amarrado de Portugal, Gabriel Soares de Souza não deixou descendentes. “Nosso Senhor não foi servido que eu tivesse filhos de minha mulher, nem outros alguns...”

No célebre testamento, copiado no livro de tombo do Mosteiro de São Bento, ele cita duas irmãs, Margarida e Maria, que viviam em Portugal. Frei Vicente do Salvador diz que foi o sobrinho do cronista, Bernardo Rodrigues, quem mandou buscar seu corpo na fortaleza às margens do Paraguaçu, depositando-o no mosteiro, como era de sua vontade, e onde já estava o túmulo de Anna de Argolo.

O mesmo autor é quem diz que quatro cunhados e dois primos de Gabriel receberam títulos de fidalguia no tempo em que o senhor de engenho organizava sua expedição. Não fica claro se esses títulos foram conferidos na Espanha, no Brasil ou se os parentes vieram com ele para a Bahia. Além de João Coelho de Souza - o sertanista que morreu enquanto procurava as minas de pedras preciosas, da mulher e do sobrinho que lhe resgatou os ossos, não existe referência de nenhum outro parente.

Ainda assim, o nome de Gabriel batiza a ladeira que desce do largo dos Aflitos para a Avenida Contorno. O cronista sem face nunca deixa de ser citado como o de alguém que deu grandes contribuições à história da sua época.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia.

Exercício de jornalismo literário em capítulos

X - Homem sem face

“Donde quer que eu falecer, me enterrarão no hábito de São Bento, havendo aí mosteiro de sua ordem, é onde me enterrarão“

(Trecho do testamento de Gabriel Soares de Souza)

Típico português com os indefectíveis bigodes. Jovem aventureiro com ares de Robin Hood. Um grisalho senhor de engenho. Gabriel Soares de Souza pode ter sido qualquer um desses homens ou nenhum deles. Será que tinha o porte militar de Thomé de Souza ou a cara de poucos amigos de Mem de Sá? Não há como saber, pois não existem imagens dele. Nem uma única gravura das que enche as páginas dos livros de história. Ninguém pensou em pintar seu retrato para a posteridade. Muito menos os autores que falam das aventuras pelo sertão atrás de ouro, fazem menção às características físicas do homem que dedicou um livro inteiro a descrever, com riqueza de detalhes, um país de dimensões continentais.

Gabriel era gordo ou magro? Alto ou baixo? Nem Frei Vicente do Salvador ou Francisco Adolfo Varnhagen conseguiram se aprofundar o suficiente na vida do autor de Noticias do Brasil. Também não é só o rosto do cronista que permanece uma incógnita. Os mistérios em torno dele incluem a origem, motivos que o trouxeram para a colônia e o mais intrigante de todos: como, de simples colono - dizem que foi lavrador de cana-de-açúcar - chegou a senhor de engenho e dono de terras que iam do Solar do Unhão até a entrada do Corredor da Vitória, sem contar as duas fazendas no recôncavo, em Jaguaribe e às margens do rio Jiquiriça.

Nascido em Portugal, supõe-se que em Lisboa, Gabriel Soares de Souza chegou ao Brasil, entre 1569 e 1570, de carona em um navio. Decidiu ficar em Salvador, provavelmente numa das paradas das embarcações para abastecimento de água no porto da baía de Todos os Santos. Quantos anos tinha quando chegou? Não há registros. Que idade contava quando morreu em algum lugar as margens do rio Paraguaçu? Ninguém sabe.

Além da data de sua chegada, as informações sobre ele dão conta de que viajou para Espanha em 1584, pouco depois de fazer um testamento que legava quase todos os bens que possuía ao mosteiro de São Bento, onde também está o seu túmulo.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

segunda-feira, 3 de março de 2008

Exercício de jornalismo literário em capítulos

IX - Diário de Nassau
O holandês João Maurício, conde de Nassau, príncipe de Orange, mal acreditou que tais maravilhas existiam do outro lado do Mar das Tormentas. Por mais que soubesse que o caminho por aquelas águas era seguro, não se esquivava de chamar o Atlântico pelo nome que sempre impôs respeito aos marinheiros. Mas esse tal Gabriel, português de cabelinhos nas ventas, era muito convincente.

Um tal Gabriel Soares de Souza deixou manuscritos sobre a vila de Olinda e o resto do Brasil. Uma cópia do que ele escreveu me chegou às mãos, através do padre Manoel do Salvador. Por essas notícias pude entender os interesses da Companhia (das Índias) na conquista. Sua descrição é saborosa...”, registrou Nassau no seu diário pouco depois de desembarcar em Pernambuco e ficar deslumbrado com “o verde das matas, os pássaros, o grande rio, que me lembrou os canais de Amsterdam.”

Quando portugueses e espanhóis se lançaram ao mar em busca de novas terras não sabiam, mas estavam inaugurando a literatura de viagens que um dia encantaria gente como o conde de Nassau. Para cada novo quinhão conquistado, havia sempre um correspondente com pergaminho e pena a postos para registrar todas as novidades que alegrariam os ouvidos dos seus respectivos reis.

A carta de Pero Vaz de Caminha e os escritos de Américo Vespúcio são bons exemplos desses relatos. Com a colonização, aumentou o número de viajantes interessados em descobrir como era esse lado do mundo. A qualidade dos textos, antes meros relatórios descritivos, melhorou bastante na medida em que crescia o fascínio desses homens, criados sob o temor da Igreja e dos rígidos códigos medievais, pela exuberante terra das palmeiras.

Mauricio de Nassau, que chegou ao Brasil no século XVII para governar Pernambuco, capitania tomada pelos holandeses, percebeu que os textos de Gabriel Soares de Souza confirmavam aquilo que ele já imaginava. As capitanias da colônia portuguesa valiam cada gotinha de tinta utilizada pelo cronista para cantar as suas belezas.

Não existe registro se além do conde de Nassau, outros holandeses ficaram embevecidos e cheios de cobiça diante das descrições dos ricos engenhos de cana-de-açúcar do recôncavo baiano, feitas por Gabriel Soares. Porém, pouco mais de 30 anos depois da morte da cronista, um dos seus alertas a Felipe II mostrou-se correto. Ao avistar as velas holandesas enfunadas no horizonte, a população de Salvador “entrouxou” os pertences e bateu em retirada, entregando a cidade aos conquistadores batavos.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colonia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia.

Exercício de jornalismo literário em capítulos

VIII - Narrador fantástico
“É costume entre os tupinambás que, quando morre qualquer deles, o levam a enterrar embrulhado na sua rede em que dormia, e o parente mais chegado lhe há de fazer a cova. Com os cabelos soltos sobre o rosto, estão-no pranteando até que fica bem coberto de terra; de onde tornam para sua casa, onde a viúva chora o marido por muitos dias; e se morrem as mulheres destes tupinambás, é costume que os maridos lhes façam a cova, e ajudem a levar às costas a defunta...”
(Trecho de Noticias do Brasil – Gabriel Soares de Souza)

Como qualquer estrangeiro desacostumado aos trópicos, Gabriel Soares de Souza temia as assombrações.

Envolvido por lendas fantásticas, seu maior medo era o Upupiara, entidade marinha metade homem, metade peixe, que aterrorizava a baía de Todos os Santos devorando pessoas e animais.

O monstro apareceu pelos lados do seu engenho e comeu cinco escravos, garante o cronista. Num outro ataque, o único que se salvou “ficou tão assombrado que esteve para morrer”.

É difícil acreditar que o autor de uma importante fonte de informações sobre a época colonial brasileira acreditava na existência de monstros devoradores de gente?

Você está no século XVI. Depois de meses à fio num navio, viajando nas condições mais precárias, com as gengivas sangrando de escorbuto, desembarca na praia selvagem, exuberante, cheia de homens e mulheres pelados e sem nenhuma plaquinha indicando Welcome to Brazil. Ficou perdido? Quer voltar para casa nadando? Pois era mais ou menos assim que os primeiros colonos se sentiam. Os letrados, como Gabriel Soares de Souza, transformavam o medo em palavras.

A sedução exercida sobre ele por esse vasto mundo desconhecido, que contrariava toda a lógica da civilização medieval européia, está preservada nas páginas de Noticias do Brasil.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia.

sábado, 1 de março de 2008

Exercício de jornalismo literário em capítulos

VII - Caça ao manuscrito

A morte prematura impediu Gabriel Soares de Souza de aproveitar a fama de Noticias do Brasil. Os cadernos onde ele escreveu de memória, só para passar o tempo nas secas tardes madrilenas, atravessaram os séculos ora com o texto publicado na íntegra, ora fragmentado e até com o título trocado. O original do manuscrito, depois de 400 anos, ninguém sabe onde foi parar.

Francisco Adolfo Varnhagem, pesquisador do século XIX, especulou que os cadernos de Gabriel foram queimados durante o incêndio na biblioteca do conde de Vimieiro. Responsável pela primeira publicação da obra na era moderna, foi graças ao trabalho iniciado por Varnhagem que as famosas descrições puderam chegar até os dias atuais. Depois dele, diversos outros pesquisadores já se debruçaram sobre Noticias do Brasil, também conhecido como Tratado Descritivo do Brasil de 1587.

Em 1847, Varnhagem empreendeu uma verdadeira caçada ao manuscrito original e encontrou três exemplares na biblioteca de Paris. Depois, achou mais três na cidade do Porto, três em Lisboa, dois em Madrid, um na Torre do Tombo e um no Rio de Janeiro. Nenhuma das cópias eram dignas de confiança.

O príncipe Maximiliano da Áustria, ele mesmo um cronista que registrou impressões do Brasil no século XIX, tinha um exemplar da obra de Gabriel que recebeu de presente durante sua célebre visita à Bahia. Mais uma vez, o texto também não era o original.

Francisco Adolfo Varnhagem esmiuçou a biblioteca de Valência e virou do avesso os arquivos dos velhos príncipes espanhóis em busca de alguma pista. Tudo em vão, achar as anotações feitas de próprio punho por Gabriel Soares de Souza era tão difícil quanto se deparar com as montanhas douradas das lendárias minas de ouro e prata.


Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

VI - Mar de Infortúnios

Menos de dois meses no mar, próximo à foz do rio Vaza-barris, o Grifo Dourado naufragou e Gabriel Soares de Souza, com título, carta régia e alvarás, foi dar com os costados numa deserta praia sergipana. A maioria da tripulação se salvou, graças ao resgate organizado pelo capitão-geral de Sergipe, Tomé da Rocha.

Refeito do susto, o destemido Gabriel volta à Bahia com os homens divididos em cinco companhias, leva a carta régia ao governador e recebe dele 200 índios flecheiros, retirados dos aldeamentos jesuítas.

Esse primeiro golpe de sorte não mudou o destino de uma expedição que desandou antes mesmo de começar.

Mordidas de cobra, provisões de carne de lagarto (a charque terminara em menos da metade do caminho) e o contato “com águas infestadas de mosquitos peçonhentos” garantiram que o destino, impiedoso como sempre, atrapalhasse os planos de Gabriel.

Para acompanhar a expedição, na vã esperança de acabar com os infortúnios, ele pediu religiosos de diversas ordens, mas a governador só liberou quatro frades carmelitas, porque temia que ao invés de buscar ouro, a bandeira organizada por Gabriel quisesse escravizar índios no sertão.

A rota escolhida pretendia subir o rio Paraguaçu. Felipe II ordenara que Gabriel fundasse povoamentos de 50 em 50 léguas. Antes de morrer, conseguiu fundar dois e construir fortalezas para guarnecer o caminho do rio. Uma delas lhe serviu de sepultura quando morreu de febre amarela.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

V - Capitão-mor

Pelas mãos de D. Cristóvão de Moura, estadista influente na corte espanhola, o manuscrito de Gabriel Soares de Souza chegou até a sala do trono de Felipe II.

Na abertura das crônicas, o senhor de engenho diz que pretende manifestar a fertilidade e outras tantas grandezas da Cidade da Baia de Todos os Santos e outros Estados da colônia, descuidados após a morte de D. João III, o rei que autorizou a construção de Salvador.

O cronista conta para Felipe II como o Brasil foi descoberto, fala da construção de Salvador e dedica capítulos inteiros a descrever detalhadamente a geografia, fauna, flora, nativos, engenhos. Nem as formigas saúvas que infestavam a colônia escapam do comentário.

Com uma forcinha das belezas narradas no manuscrito e contabilizando as pepitas de ouro a serem descobertas, o rei espanhol aprovou todos os pedidos do candidato a bandeirante e ainda lhe concedeu privilégios extras.

Gabriel, que chegou a Madrid como suplicante, saiu de lá ostentando o título de capitão-mor e governador da conquista e descobrimento do Rio São Francisco.

Embarcou de volta ao Brasil munido de oito alvarás e mais uma carta régia endereçada ao governador-geral D. Francisco de Souza. O navio era o Grifo Dourado, que levantou âncoras em 7 de abril de 1591.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Exercício de jornalismo literário em capítulos

IV - Mensageiro do rei

“Estará bem empregado todo o cuidado que Sua Magestade mandar ter d’este novo reino; pois está para edificar nele um grande império, o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão soberano que seja um dos Estados do mundo...”
(Trecho de Notícias do Brasil – Gabriel Soares de Souza)

Os nós e amarras políticas da corte espanhola prenderem Gabriel Soares de Souza na cidade de Madrid por quase sete anos. Entediado com a longa espera pelas cartas de autorização real - em 1580 Portugal foi anexado à Espanha e por isso o rei Felipe II tinha literalmente na ponta da pena o destino da expedição do senhor de engenho -, decidiu escrever Notícias do Brasil. As crônicas mostrariam ao soberano o risco de deixar as riquezas da colônia a mercê de piratas e corsários.

“Vivem os moradores tão atemorizados, que estão sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o mato, como fazem com a vista de qualquer nau grande, temendo serem corsários, a cuja afronta S.M. deve mandar acudir com muita brevidade (...) porque, se os estrangeiros se apoderarem desta terra custará muito lança-los fora...”

Depois de 17 anos morando na Bahia, Gabriel Soares de Souza tinha lembranças, impressões e curiosidades para deleitar Felipe II e todos os europeus que ainda imaginavam um covil de criaturas marinhas monstruosas desse lado do Atlântico. O problema era fazer seus escritos chegaram às mãos do monarca.

Se conseguisse deixá-lo empolgado com as possibilidades do Brasil, além de melhorar a administração da colônia, garantiria todas as cartas seladas com o brasão real, valioso passaporte para as minas do São Francisco.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em 27 de junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

Exercício de jornalismo literário em capítulos

III - O caminho

Enquanto na fazenda de Gabriel Soares de Souza se organizavam os apetrechos necessários à grande expedição, o senhor de engenho veio até Salvador resolver os detalhes da viagem. Mal sabia ele que na capital da colônia, miudezas como preparar um testamento tomariam menos tempo que às burocracias da coroa.

Dar as ordens para o funcionamento de seu outro engenho, localizado no caminho íngreme que levava à antiga Vila do Pereira, seria mais simples do que conseguir autorização do rei e partir atrás das minas de pedras preciosas.

A espera pelas petições, requisições, alvarás, concessões e cartas de recomendação foi longa. Nunca se gastou tanta cera de abelha em selos com o timbre real. Finalmente, “que o Deos da misericórdia tome conta dos meus pecados”, Gabriel Soares de Souza estava pronto para partir em busca de riquezas e glória.

Não encontrou nem uma coisa nem outra. Distante cerca de 100 léguas de Salvador, perto do lugar onde João Coelho de Souza havia morrido alguns anos antes, ele e a sua brava determinação de encontrar o caminho para Eldorado cairam vencidos por um mísero mosquito e pereceram diante da implacável febre amarela.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em 27 de junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Exercício de jornalismo literário em capítulos


II - A expedição

Com mãos nervosas, Gabriel abriu o saquinho que acompanhava a carta e o mapa. Deixou escapar uma exclamação de surpresa quando viu as amostras reluzentes que o irmão enviara pelo mensageiro. Só então se deu conta de que o homem ainda estava na sala, de cabeça baixa, esperando novas ordens. “Conhece o conteúdo da mensagem que me trouxe?”. O homem sacudiu a cabeça afirmativamente. “Sabe onde fica o lugar indicado neste mapa?”. Aceno negativo. “Então, teremos de revirar o sertão até encontrar”.

Daí em diante, o senhor de engenho Gabriel Soares de Souza, português radicado na Bahia na segunda metade do século XVI, não teria mais sossego na vida até encontrar os tesouros prometidos no mapa de seu irmão. A trajetória percorrida por ele nessa busca, embora registrada com bem menos cores pela história oficial, abre espaço ilimitado à imaginação e daria um romance. De uma coisa Gabriel teve certeza logo que leu o conteúdo da carta: João não sabia onde estavam as minas. Depois de três anos de andanças, chegou bem perto de encontrá-las. O que ele precisava era refazer o caminho do irmão e seguir adiante.

Interrogou o mensageiro sobre como se deu a morte de João, onde havia sucedido e como ele fizera aquele mapa.

O engenho tomou-se de uma agitação pior do que na época do corte e moagem da cana. Pior ainda do que em 1567, quando Gabriel Soares se estabeleceu por aquelas bandas acompanhado de escravos, carros de boi e índios forros.

Foi com dó que o senhor do engenho de Jiquiriçá mandou matar umas quantas cabeças de gado para fazer carne de charque. Apesar do boi valer muito numa fazenda de cana-de-açúcar, no século XVI as moendas funcionavam com tração animal, a carne curtida em grandes mantas seria mais necessária numa viagem que prometia ser longa. Farinha! Era preciso arrumar muitos sacos de farinha de mandioca. Gabriel, autor de Noticias do Brasil, uma das crônicas mais importantes da época colonial - fonte de consulta dos historiadores que o sucederam - sorriu ao lembrar da curiosidade de recém-chegado diante da técnica dos índios para transformar aquela raiz arrancada das entranhas da terra, em alimento. Ralar, espremer a água peçonhenta e secar ao fogo. A farinha, que não se estraga com facilidade, seria o prato principal daquela aventura sem prazo definido.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em 27 de junho de 2004, no jornal Correio da Bahia

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Exercício de jornalismo literário em capítulos

I - A mensagem

O mensageiro dobrou a carta bem miúda e colocou por dentro do chapéu. O embrulho, ele escondeu sob as roupas. Se despediu minutos antes do doente dar o último suspiro. Ao sair das fronteiras do acampamento, respirou fundo. Apertou o chapéu com mais força na cabeça. Aquela seria a missão mais importante de sua vida. Com um facão afiado, abriu caminho por entre espinhos secos e mata cerrada. Atravessou terras esturricadas de sol, lamaçais infestados de sanguessuga. Viajava na mais extrema solidão. Nem que quizesse poderia ser acompanhado. As ordens que havia recebido eram precisas. “Só entregue a mensagem que está carregando nas mãos de meu irmão”. No caminho, só conversava o tempo necessário para se informar com um viajante e conferir a rota. Depois de perder a conta dos dias e das léguas vencidas, finalmente chegou às terras do engenho à beira do rio Jiquiriçá, no recôncavo baiano.

O dono saira ao raiar da aurora para inspecionar os canaviais. O mensageiro esperou. Lhe deram água e comida, que comeu com o desespero de quem passou dias viajando pelos matos, escondendo-se dos curiosos. Ao cair da tarde, avistou descendo o caminho até a casa grande um homem montado num cavalo. Vinha acompanhado dos feitores. Não reconheceu seu rosto. Pelo porte, imaginou que era quem procurava. “Vossa mercê é o senhor Gabriel Soares de Souza? Tenho uma mensagem de vosso irmão, João Coelho de Souza. Ele me deu pouco antes de morrer de febre”. Entregou a carta ao homem que lhe pareceu um dos fidalgos do rei, embora ele não tivesse muita certeza porque nunca vira um fidalgo de perto. “Vossa mercê não deve abrir isso aqui fora, na frente dessa gente”. Gabriel olhou o mensageiro de esguelha, desviou o olhar para os feitores, eles retiravam as selas dos animais. Decidiu seguir o conselho. Os dois homens entraram na casa grande. O senhor do engenho abriu a carta do irmão. Dentro dela, em letras tremidas, a despedida de um condenado. Acompanhava a mensagem, um misterioso mapa. Era o caminho para o Eldourado, as minas de ouro e prata escondidas em algum lugar próximo às cabeceiras do rio São Francisco.

Andreia Santana, trecho da reportagem Cronista da Colônia, publicada em 27 de junho de 2004, no jornal Correio da Bahia